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Mostrando postagens de setembro, 2022

Poesia

Vi ontem, por acaso, um vídeo com uma senhora declamando um poema. Era a própria poeta, Ana Luísa Amaral, portuguesa. Encantou-me a maneira como disse o próprio poema. Encantou-me o poema. A Literatura, uma vez mais, atenuando, em minh’alma as agruras do tédio, esse que não me abandona, jamais. Tomara que gostem! SONETO CIENTÍFICO A FINGIR   Dar o mote ao amor. Glosar o tema tantas vezes que assuste o pensamento. Se for antigo, seja. Mas é belo e como a arte: nem útil nem moral.   Que me interessa que seja por soneto em vez de verso ou linha devastada? O soneto é antigo? Pois que seja: também o mundo é e ainda existe.   Só não vejo vantagens pela rima. Dir-me-ão que é limite: deixa ser. Se me dobro demais por ser mulher (esta rimou, mas foi só por acaso)   Se me dobro demais, dizia eu, não consigo falar-me como devo, ou seja, na mentira que é o verso, ou seja, na mentira do que mostro.   E se é soneto coxo, não faz m...

Rascunho

Assim, simples. Não seria uma história. Não de fato. Poderia ser, mas não sei. Não estou seguro se faria sentido se fosse mesmo uma história. O homem andaria muito, observando o sol, o vento, o céu. Sentiria o vento e a textura da terra em que pisa. Tudo com muita calma e prazer. Sim, prazer. Não seria possível imaginar esse homem sem prazer. Em todos os sentidos. Espero que isso venha a ficar claro. Pois então. O homem anda, por dias a fio, encontra lugares de que gosta. O ângulo da luminosidade. Os acidentes geográficos que pode identificar dali. Se for do alto de uma falésia, o mar seria outro ponto de interesse. Não importa. O que vale mesmo é saber que antes de mais nada ele anda, muto. E para sem cálculo, sem previsão. Para quando sente que deve parar e quando sente que o lugar em que está é suficiente para fazer o que ele tem que fazer. Sim. Ele faz porque tem que fazer. Claro que ele gosta, mas tem que fazer. O senso de obrigação é atávico e ele não sabe explicar por quê. As pe...

Trecho

No romance que tenho tentado escrever, a duras penas, Otacílio Piffio é o pseudônimo de um autor que escreve um romance intitulado O útimo d desejo de Otacílio Piffio . Ainda não sei que continuidade vou dar aos três trechos que já escrevi. Vasculhando os arquivos do computador, encontrei o texto que trago hoje e que resolvi inserir no romance. Vai ser parte de uma digressão que o protagonista do romance "escrito", no romance que eu escrevo (Otacílio Piffio), vai fazer diante de uma situação, digamos inusitada. Segue o trecho: " Não quero a mirada da mediocridade a obscurecer os momentos de lucidez que, porventura, venham a me inundar a alma. Não mais ter que aguentar as caras tortas de quem acredita que um poema vale menos, bem menos, que tudo que alguém pode dizer sobre ele. Mesmo quem jamais “leu” o poema como seria de esperar. A dispensa do poema não é garantia de melhor abordagem teórica ou crítica ou analítica. Os detalhes de um poema contam. A discussão começa por...

Palavras

Palavras são “seres” interessantíssimos. Parecem, às vezes, ter vida própria. Seus significados seduzem e confundem. Seu sentido pode mudar conforme a inflexão da voz ou o contexto em que aparecem. Um mundo praticamente mágico que muitos têm a ousadia de afirmar que conseguem dominar. Ledo engano! Um amigo colocou em sua página do facebook observações sobre duas palavras: enfezado e gari. Na onda de preguiça que está citando a passar por aqui, deixo os comentários para o vosso deleite (imitando expressão alfacinha!) Como surgiu a palavra “ENFEZADO”. Um pouco de História: a cidade do Rio de Janeiro, como conhecemos hoje, é fruto de um processo de modificação que foi acontecendo ao logo do tempo. No século XIX, ela estava bem longe de ser chamada de cidade maravilhosa. Pessoas brutas, ruas esburacadas, sujas e esgoto faziam naturalmente parte do cenário da pequena cidade do Rio de Janeiro. No século XIX, quem sofria bastante com esse cenário eram os “Tigres”. Muita gente atravessava a ru...

Do lado de lá

Nas duas últimas semanas, fomos quase sufocados com tantas matérias e fotos e vídeos e comentários e textos e notícias sobre os funerais da Rainha Elizabeth II, A Rainha Isabel II, como conhecida em Portugal. Paralelamente – e para mal dos pecados de cada um dos cidadãos de bem viventes neste rincão, do lado de cá do grande charco – outra avalanche de igual pressão e conteúdo quase nulo também nos assaltou: a sequência interminável de promessas vazias, de mentiras deslavadas e de delírios absolutamente inenarráveis – para deixar de lado outros aspectos que beiram o parético – da “propaganda eleitoral obrigatória e gratuita”. Não posso afirmar, porque não tenho conhecimento para tanto, mas tenho a impressão de que essa excrescência da criatividade rasteira e falaciosa da “inteligência humana” só existe por aqui. Pior, financiada por dinheiro arrecadado dos inúmeros e incontáveis impostos que pagamos a todo momento. Entre os dois, meu coração não balança. De olhos fechados, escolho a pri...

De uma amiga

Tenho uma amiga muito querida. O nome dela é Glória. Fomos colegas de trabalho durante uns bons anos. Hoje somos amigos e, ouso dizer, confidentes. Ela passa atualmente por momentos muito difíceis, digladiando com a maldade de uma filha que há mais de uma década impede que conheça sua neta Emma. Glória não conhece a Emma. A avó foi obrigada a perder a convivência com a neta em seus primeiros netos. A neta, durante todo esse tempo foi bombardeada com informações equivocadas, maldosas e mentirosas da mãe. A situação é dificílima. Para completar o "quadro da dor"(Adoro esta expressão que aprendi com uma outra amiga gaúcha!), a juíza responsável pelo processo fica postergando a decisão final, a obrigatoriedade de cumprimento da sentença que ela mesma exarou e... Bem, resolvi colocar aqui o texto que minha amiga Glória escreveu para um grupo de "avós alienados". É triste: ela não é a única. Segue o texto: “EM DEFESA DOS AVÓS IMPEDIDOS DE CONVIVER COM SEUS NETOS Glória M....

Passado

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico, e o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante. Se conseguimos conquistar com braço forte o penhor dessa igualdade, o nosso peito desafia a própria morte em seu seio, ó liberdade. O nosso peito desafia a própria morte! Ó pátria amada, idolatrada, salve! Salve! Brasil, um sonho intenso, um raio vivido de amor e de esperança à terra desce. Se a imagem do cruzeiro resplandece em teu formoso céu, risonho e límpido, gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, e o teu futuro espelha essa grandeza, terra adorada, entre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada! És mãe gentil dos filhos deste solo, pátria amada, Brasil! Fulguras, o Brasil, florão da América, deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, iluminado ao sol do Novo Mundo! Teus risonhos, lindos campos têm mais flores do que a terra, mais garrida. Nossos bosques têm...

De passagem

Meu professor de análise sintática era o tipo de sujeito inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida, regular como um paradigma da primeira conjugação. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Casou com uma regência. Foi infeliz. Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva. Tento ir para os eua. Não deu. Acharam um artigo indefinido em sua bagagem. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conetivos e agentes da passiva, o tempo todo. Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.   Este texto não é meu. Vi-o como postagem, de Facebook, de um sujeito chamado Dagoberto Wagner. Não sei quem é. O autor da postagem, coloca aspas no início e no fim do texto. Entre parênteses, embaixo, está escrito Paulo Leminski. Não conheci este poeta. Vi dele algumas fotos. Li algumas linhas, mais de comentários do que dele próprio. Sei que ficou com fama de ...

Em choque - O pós 7 de setembro.

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Graciliano Ramos

Faz tempo, em três palavras destruí quase uma década de literatura. Isso me disse um amigo, à altura. A “destruição” se referia a Graciliano Ramos e sue romance Vidas secas. Naquele momento, não tinha a menor ideia da bobagem que acabava de dizer. O amigo que me disse o que disse, indicou-me três outros livros do autor:  Caetés ,  Angústia  e  Memórias do cárcere ; a serem lidos nesta mesmíssima ordem, se não me falha a memória. Foi o que fiz. E não me arrependi nem um pouco. Agora, aposentado, retomo a leitura de livros que já li e reli, sobre os quais dei aulas e escrevi artigos. Um prazer inolvidável. Assim foi que retomei  Infância , que acabei de reler. Que passeio. Numa direção contrária à de  Memórias póstumas de Brás Cubas , o livro de Graciliano Ramos faz uma espécie de inventário da infância do autor. Assim dizem e consideram os comentaristas e críticos da obra. Fico como a Maria vai com as outras. A leitura agora é de puro deleite, sem as obrigaç...