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Mostrando postagens de agosto, 2019
Ecos lusitanos
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Meditação do Duque de Gandía sobre a morte de Isabel de Portugal Sophia de Mello Breyner Andresen Nunca mais A tua face será pura limpa e viva Nem o teu andar como onda fugitiva Se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. A luz da tarde mostra-me os destroços Do teu ser. Em breve a podridão Beberá os teus olhos e os teus ossos Tomando a tua mão na sua mão. Nunca mais amarei quem não possa viver Sempre, Porque eu amei como se fossem eternos A glória a luz o brilho do teu ser, Amei-te em verdade e transparência E nem sequer me resta a tua ausência, És um rosto de nojo e negação E eu fecho os olhos para não te ver. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. Prospecção Miguel Torga Não são pepitas de oiro que procuro. Oiro dentro de mim, terra singela! Busco apenas aquela Universal riqueza Do homem que revolve a solidão: O tesoiro sa...
(Re)leitura (?)
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Li (Reli? Já não sei...) um livro do Carlos de Oliveira, autor português, chamado Casa na duna . Tenho quase absoluta certeza de que foi releitura. Identifiquei logo um procedimento narrativo sui generis sobre o qual também tenho quase absoluta certeza de já ter comentado. Trata-se de uma narrativa que não se desenvolve a partir do encadeamento de episódios relatados por um narrador que parece a tudo organizar, como eminência parda da ficção que se desdobra sob os olhos de um leitor não tão entusiasmado assim. Se não me engano, no comentário anterior – se é que de fato o fiz, quando da pressuposta primeira leitura do romance – eu dizia que o livro conta uma história que não acontece. A voz narrativa, responsável pelo relato que se lê vai apresentando personagens e situações, criando um enredo que se enovela numa mudança sutil e subliminar da temporalidade. Os índices de marcação temporal praticamente inexistem, apesar da vinculação da obra desse autor ao neorrealismo português. L...
Delírios
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Deve haver na Filosofia, na Psicologia, na Química ou na Biologia, juntas ou isoladas, em dupla, trios ou quarteto, um capítulo que se explique a crença de que a solidão é trágica em sua essência. Esse axioma leva à constatação de que solidão é algo ruim, mal, a ser combatido, evitado, superado. Tenho cá minhas dúvidas. Do fundo de minha ignorância, penso que não é bem assim. Sempre, por natureza, preferi o isolamento. Claro está, como qualquer outro adolescente em pindorama, vivi meus momentos de agitação “juvenil”. As turmas, as noitadas, passar a noite fora... conquistas que o tempo ensina – pena que um pouco tarde demais – serem quase inócuas. Só não o são, de fato, porque fazem parte desse exercício inexplicável que é viver. Porque é um exercício. Por que é inexplicável, apesar de tantas explicações ao longo do tempo... Isso me levou, hoje, – e já adianto que não faço a mínima de como e por que me veio a mente essa estranha elucubração, e não vou me esforçar para procurar ex...
Eu não sabia...
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POR QUE OS REIS DE PORTUGAL NÃO USAM COROA? Durante toda a dinastia dos Bragança, as imagens oficiais dos reis eram marcadas pela inutilização da Coroa Real. Entenda o motivo ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 08/08/2019, ÀS 08H00 https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-por-que-os-reis-de-portugal-nao-usam-coroa-em-todas-imagens-coroa-esta-na-mesa-e-cabeca-esta-sem-nada.phtml?fbclid=IwAR1YYeQralBM-A6kP20xUQTz2Vesd3pgWxBiqOlsDTLyhkjBlYlD1VDi3pU Crédito: Wikimedia commons A Coroa é um símbolo de suma importância para as monarquias, ela representa e marca o poder do Rei. Diversos reis na História foram retratados por imagens e símbolos e a Coroa é tradicionalmente um elemento imagético no universo de signos régios. Este não é o caso das representações em imagem dos reis de Portugal desde a restauração e a independência do país após anos de União Ibérica . A partir de 1640, ano do fim da União, assume em Portugal a Casa Real de Bragança, li...
Oblivium
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Foram quatro indivíduos. Dois homens e duas mulheres. Quatro espécimes da raça humanoide. O restante dos indivíduos do mesmo grupo não será atingido aqui, somente estes quatro. Particularmente estes quatro. Neles, a soberba, a mesquinhez, a covardia e o rancor, para além do desdém e da inveja – sim, inveja não confessada, jamais assumida, mas inveja – sobra, pulula, supura. Tudo isso num texto com algumas poucas linhas em que tudo isso se materializa, visão distorcida e tendenciosa destes quatro cavaleiros de um apocalipse insidioso e impossível de se sustentar. Disseram eles que não havia desarticulação entre os capítulos e os argumentos que pretendem sustentar a argumentação. Além disso, constava – na leitura dos “quatro” equívocos em conceitos básicos das teorias acerca da leitura, da recepção, da psicanálise, da teoria da literatura e das inúmeras teorias críticas sem vinculação com o eixo central da mesma argumentação. Complementaram com a afirmação de que havia r edução ...
Maus hábitos
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Pérolas da ignorância O administrador municipal insiste em agendar a limpeza pública para o meio da manhã, três vezes por semana, para pode atrapalhar bastante o trânsito e, assim, mostrar serviço. No início e no fim da manhã, papais e mamães, muito ciosos – isso para não contar com os “abnegados” motoristas de van escolar – param em filas duplas e triplas para deixar/apanhar seus pimpolhos que não fazem ideia do desarranjo que causam em nome de sua própria inocência infantil. A patuleia enfrenta fila debaixo do sol, compra muitos ingressos pra revender mais caro – como se isso fosse muita esperteza fazer isso – e reserva o seu próprio. Daí, na hora do jogo, fica em pé no estádio vociferando e berrando, esgualepando a voz pelo seu “time do coração”. Os “chiques” pedem o prato, pagam caro por uma garrafa de vinho, comem fazendo pose olhando para os lados, a ver se estão sendo “notados”, tiram fotos dos pratos e depois, acabando o jantar, deixam comida no prato em nom...
Três desejos
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Três são as partes do dia. Três, as “idades” do homem. Em três dias, o filho de Deus morreu e ressuscitou. Por três vezes, Pedro negou Cristo, como previsto, e o galo cantou outras três vezes para tanto. Três são os períodos do tempo. Três é o número mínimo para formar uma família, por tradição. Três é considerado o número do equilíbrio perfeito. Por fim, três são os pedidos concedidos pelo gênio da lâmpada, conforma a historieta que animou a fantasia de muitos daqueles que já ultrapassaram as quatro décadas de existência. Essa fábula teve versão tele cinematográfica, também na infância do mesmo grupo das quatro décadas. Era engraçado. Uma geniazinha loura, espevitada, de olhos azulíssimos e muito destrambelhada fazia de tudo para o bem-estar de seu “amo”. Ela o amava e só o queria feliz e satisfeito. No entanto, tudo o que ela fazia sempre passava por uma tramoia alheia, um percalço, uma dificuldade, um engano ou uma “armação”. Ao fim e ao cabo, o filme que passava regularmente ...
Carta da memória das Índias - 2
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Segue a segunda carta, um pouco menos longa! 2 CARTA DA REGIÃO MAIS FÉRTIL (a meu pai) É a região mais fértil em frutas que há no mundo, as quais são mui boas e excelentes; e todo o país é coberto de árvores de fruto, laranjas doces e azedas, limões de gosto mui suave e deliciosos, romãs, cocos, ananases e outras frutas da Índia. Carnes de todas as qualidades são ali abundantes; o peixe nunca falta. Há milho, mel, canas, açúcar e manteiga em abundância; mas não se cria ali o arroz, que é o principal alimento e vem de Bengala. Mas toda a canela do mundo só de lá vem e há dela florestas inteiras. Há também grande número de elefantes, muita quantidade de pedras preciosas, como rubis, jacintos, safiras, topázios, granadas, esmeraldas, olhos de gato e outras, as melhores da Índia, e por cima de tudo é lá que há a bela e grande pescaria de pérolas mui finas e belas; mas não há diamantes. Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRV...
Cartas da memória das Índias
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Enquanto trabalhei, escrevi sobre textos que li - poemas, contos, romances, cartas. Dentre os textos que li, não escrevi sobre a poesia de Al Berto. Cheguei a apresentar comunicação sobre um poema dele. E só. No entanto, ao acabar de ler uma edição de O medo (reunião, até aquela altura, de toda a obra do poeta), fiquei extasiado com a leitura de "Três cartas da memória das Índias". Poema longo, belíssimo, doído e contundente. Não cabe, agora, tecer comentários de ordem teórica ou assertivas críticas. <eu intuito é partilhar o prazer de ler um poema... bonito. Como é longo, vai em três partes, exatamente o número das "cartas" que compõem esta obra do poeta português, Al Berto. Enquanto trabalhei como professor escrevi sobra muitos livros que li TRÊS CARTAS DA MEMÓRIA DAS ÍNDIAS 1 CARTA DA ÁRVORE TRISTE (a minha mulher) lápide a contínua escuridão torna se claridade iridescência lume que incendeia o coração daquele cujo ofíci...