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Mostrando postagens de novembro, 2020

Turbilhão

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Os meninos de rua, vendedores de balas nos semáforos, não andam usando máscara. Acreditam-se imunes (?). Enquanto isso, dizem, os hospitais particulares (essa expressão sempre me intrigou, mas não vou devanear sobre ela aqui e agora) andam com sua lotação perto do limite. Dizem. Não fui a nenhum deles para verificar a veracidade da informação. Duvido que os defensores doas arautos da atualidade catastrófica o façam. Por isso não confio nos números divulgados. Posso estar dando prova de ignorância, mas não acredito. Enquanto isso, penso na real e concreta reação de Antonio Candido ao ler o texto de Clarice Lispector pela primeira vez. O que terá confidenciado à primeira pessoa que perguntou a opinião do professor? Na duração desse devaneio, recordo a gentileza e a finesse de Guimarães Rosa, numa entrevista dada na Alemanha, dizem, em 1962. O homem é de uma polidez que chega a fazer chorar, de inveja. Entre as muitas perguntas feitas, o autor encontrou maneira de falar de seu Grande sert...

O adeus ao sr. Barata

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BSM Entrevista Sergio Tavares

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Billie Holiday - When You're Smiling

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Bolsonaro voando, as pérolas da semana, Barroso tendo que se explicar e ...

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Capítulo de livro III

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  Ainda sobre a Nelida. Anos depois ela se vingou. Numa publicação que editou, não incluiu um texto meu, apresentado e aprovado. Num encontro casual, perguntei o porquê. Ela disse, com a sobrancelha esquerda arqueada e afinando mais ainda o bico, com o rosto recortado pelas cicatrizes do acidente, que meu texto ficaria desvalorizado no conjunto do volume. Deu um rodopio e arqueou mais ainda as sobrancelhas. Rodou a saia estampada de flores enormes, em cores quentes. Sumiu no meio das celebridades acadêmicas que a cercavam. Depois disso, mais nada, absolutamente nada. Daí comecei a pensar. A palma das mãos vai ficando engelhada. Nos pés, mais exatamente nos calcanhares, uma bolinha incômoda, vulgarmente conhecida como esporão – será este mesmo o nome? – estava lá. Lembrava que um dia, tempos atrás, um remédio fez com que desaparecesse. Mas cadê memória? Cadê lembrança? O nome escapava, acompanhada pelo tempo. Ainda assim, a esperança de poder entender o que se passara era mais forte...

Álvaro de Campos - Tabacaria (por Mário Viegas)

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Capítulo de livro II

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  Não sei dizer quanto tempo se passou desde que entrei na sala semiescura. Não estava nervoso, nem irritado. Curioso, essa é a palavra. Curioso. Fiquei andando de um lado para o ouro esperando que alguém entrasse. Nada. nenhum barulho. Nada. Cansei de ficar andando e me sentei. De repente, do nada, talvez pelo ócio, lembre-me de Nelida. Aquela balzaquiana de saias floridas, perfume doce maquiagem carregada, um tanto oleosa. Sua figura era... era... Exuberante. Não sei dizer outra coisa. Francófila. Uma dos poucos brasileiros que conseguiram defender uma tese de Estado em Paris. O ciclo romanesco dos Rougon-Macquart. Mais de uma dezena de romances. Pastas depositadas na Biblioteca Nacional de Paris, como parte do acervo do escritor francês Émile Zola. Um feito acadêmico e tanto. Ao lado de outras tantas balzaquianas que foram para a França e escreveram apenas trabalhos de conclusão de troisième cycle universitaire e voltaram para pindorama arrotando doutorados (havia um acordo ent...

Pesos e medidas

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  I Na volta das férias, na primeira aula de Língua Portuguesa (ainda se leciona isso na escola?), a professora pedia uma composição (hoje os modernos diriam  “ redaçãov): “Minhas férias”. Tiro e queda. (Eu sei, eu sei. Já não pedem mais isso. Dizem que é antiquado. Preferem pedir às crianças que escrevam sobre os impactos do divórcio de seus pais no mercado de ações. Ou ainda, pedem para escreverem sobre suas identidades  wzq∞alfatranscisantipós+metroassexuadaconvictas. É mais contemporâneo. Eu sei. Mas faz um esforço e deixa eu terminar minha historinha). Entre as redações, a professora encontra uma sui generis . “Nessas férias, fui visitar a fazenda de um amigo do bairro. Saímos no sábado pela manhã. O sol estava azul, azul, azul. A estrada era muito bonita e a mata estava verde, verde, verde. Quando chegamos, a mãe do meu amiguinho serviu um refresco que estava doce, doce, doce...”. E lá ia o autor repetindo três vezes o mesmo adjetivo para cada coisa que descrevia....

Capítulo de livro 1

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  Meu nome é Ezequiel. Para ser sincero, não tenho sobrenome. Meu pai desapareceu meses antes de eu nascer. Minha mãe não quis me dar o nome dele. Então, chamo-me Ezequiel. E só. Estou num lugar que não conheço. É todo cimentado. Tem uma janela grande e gradeada mais para o alto da parede que deve medir uns dois metros e meio. Não tenho condições de medir com exatidão. São 8 passos no lado mais comprido e 5 passos, no mais curto. Neste, diametralmente oposta à janela, há uma porta de ferro com duas janelinhas. Ainda não consegui descobrir para que servem ou, se descobri, neste exato momento não me lembro. Há tanta coisa de que não me lembro . Para quem entra neste espaço, à direita há uma espécie de balcão, a um metro e meio do chão, também de cimento, à direita. Está repleto de livros e papéis. Não posso garantir sua origem, nem propriedade. Uma cadeira e uma luminária completam a “decoração”. Do lado esquerdo, há uma cama, também cimentada à parede, a uns oitenta centímetros do c...