Postagens

Mostrando postagens de 2020

Final

Para matar o tempo que resta do ano de 2020, reproduzo aqui o  discurso do Cardeal português Tolentino de Mendonça, neste 10 de Junho de 2020, convidado pelo presidente de Portugal para fazer a abertura do Dia das Comunidades Portuguesas.  Tem imenso valor universal e civilizatório. Recomendo a leitura, é um bálsamo iluminado nesses dias cinzas. O QUE É AMAR UM PAÍS Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha- arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânti...

Conhecimento

Imagem
Era uma vez uma gata. A gata pariu dois gatinhos. Um dos filhotes foi entregue para um profissional da medicina veterinária, especializado em felinos e dentre estes, os gatos domésticos. Dono de uma clínica para gatos, renomado professor universitário. autor de bibliografia incontável sobre o assunto. Jovem e promissor. Um portento! O outro filhote foi dado para um rapaz que morava numa “comunidade” (se eu escrever “favela, vão mandar me prender, me processar, cassar meus direitos, talvez até me assassinar!). Então... O rapaz morava numa comunidade. Ele jamais estudou. Sempre viveu de bicos. Órfão de pai e mãe, vive sozinho. Sua única companhia é o gato que recebeu  para cuidar. Já tinha cuidado de outros. A minha pergunta é: qual dos dois indivíduos vai melhor tratar o gato? Fiz esta pergunta a uma professora que me criticou por usar um exemplo do adagiário popular para explicar determinada caraterística da poesia ocidental. Fiz-lhe pensar sobre as vicissitudes do conhec...

Feliz Natal!

 

Teste

Imagem
  O experimento. Em duas salas absolutamente iguais e contíguas há uma mesa. Sobre a mesa, nas duas salas, estão os seguintes materiais: um quilo de açúcar, um livro de água mineral, seis limões, um liquidificador, um jarro com capacidade de um livro e meio, uma faca e uma colher. Em frente à mesa, na parede contrária à da porta, das duas salas, há um cartaz com a seguinte frase: se a vida te der um limão faça uma limonada. As duas salas são isoladas térmica e acusticamente. A entrada para elas é absolutamente independente. Em cada uma delas é introduzida uma pessoa. As duas pessoas não sabem da existência uma da outra. As duas pessoas não sabem que a outra está entrando numa sala absolutamente idêntica à sua. Cada uma delas sabe, apenas, que vai passar por um teste. Para ambas é informado que depois de trinta minutos serão retiradas das respectivas salas. Elas continuarão sem saber da existência uma da outra. Os observadores esperam os trinta minutos. As duas pessoas são retirad...

Orelha

Imagem
O texto que segue vai aparecer nas orelhas de um livro de crônicas a ser lançado em breve. O tempo que passa. As coisas que acontecem. As pessoas que reagem. Isso é matéria de essência imponderável. Ponto. Por isso mesmo, atraente e fascinante. A palavra, em sua saga incontrolável, segue os passos do desejo de dizer essas coisas. Dizer dessas coisas. Talvez seja este o ímpeto que move a mão do escritor, do sujeito que escreve – um poeta, em certo sentido –, a desvendar esse mundo insondável da possibilidade de dizer. Quando a adversidade se apresenta, em uma de suas inimagináveis formas, a palavra urge. O ímpeto se intensifica e a palavra urge. Esta é, a meu ver, uma maneira de enxergar uma crônica. Resultado da busca de satisfação desse elã. Exercício de “realização” de uma urgência, a da palavra, experienciada pelo sujeito que escreve, porque porta voz do que vê. A atualidade tem sido marcada por acontecimentos funestos que aparente, e só aparentemente, se mostram inexplicáveis. Muit...

Régimen chino promueve vacunas para el virus con historial de reacciones...

Imagem

Poesia

Imagem
                Dois homens. Dois poetas. Dois homens que escrevem poesia. Cada um numa banda do mundo, tendo um imenso lago azul pelo meio. Um em Portugal, outro no Paraná. Um tem nome igual ao meu – meu xará, meu tocaio. Esta segunda forma é típica do sul do Brasil e de Trás-os-Montes, em Portugal. Coincidência? Duvido. Um se chama José Luis Peixoto, outro, Leopoldo Comitti. Seus livros têm como título Regresso à casa e Mosaico absurdo , respectivamente. Poesia de grosso calibre, no sentido mais elogioso possível. Nos dois casos, pode-se dizer, há boa dose de melancolia. Diria eu que, num e noutro caso, o perceber o mundo de cada um dos autores se encontra num campo restrito de percepção. Talvez seja este campo a totalidade das palavras e imagens construídas. Talvez, outra possibilidade, a certeza de que o que vêm não se pode expressar em palavras, não de maneira absolutamente satisfatória. Isso, por si só, garante ao texto produzido sua ...

Recomeço

Uma preguiça enorme... Então, resolvi apenas mostrar o início de meu novo livro que tem por título provisório:  Nem tudo corre como num romance. Aí vai: " O texto que aqui começa pode ser lido, no mínimo, de três maneiras. A primeira delas, a óbvia, é a que vai levar você da primeira até a última linha – se tiver paciência e interesse para tanto –, na sequência em que aqui vai exposto, desenvolvido. A segunda é o oposto. Você começa do fim para ver o que acontece. A terceira, fruto de seu arbítrio, é aleatória: você vai escolhendo que capítulo ler antes e depois de outro. Eu sei, eu sei. Não precisa fazer esse ar de enfado e desdém. Como se eu tivesse a intenção de ser original. Não sou. Julio Cortázar já fez isso. O romance Jogo de amarelinha (na tradução que li – 1994, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira – , Rayuela , no original) tem uma advertência similar e propõe algo parecido. Reconheço. Porém, jamais anunciei que eu seria original. Sabe por quê? Porque acredito que não...

SILVIO NAVARRO EXPÕE MARACUTAIA DE ALCOLUMBRE E MAIA EM CONLUIO COM STF ...

Imagem

Novas Veredas: Guimarães explica 'Grande sertão'

Imagem

Homenagem

  Morreu Eduardo Lourenço, gigante do pensamento português | Eduardo Lourenço (1923-2020) | PÚBLICO (publico.pt)

Turbilhão

Imagem
Os meninos de rua, vendedores de balas nos semáforos, não andam usando máscara. Acreditam-se imunes (?). Enquanto isso, dizem, os hospitais particulares (essa expressão sempre me intrigou, mas não vou devanear sobre ela aqui e agora) andam com sua lotação perto do limite. Dizem. Não fui a nenhum deles para verificar a veracidade da informação. Duvido que os defensores doas arautos da atualidade catastrófica o façam. Por isso não confio nos números divulgados. Posso estar dando prova de ignorância, mas não acredito. Enquanto isso, penso na real e concreta reação de Antonio Candido ao ler o texto de Clarice Lispector pela primeira vez. O que terá confidenciado à primeira pessoa que perguntou a opinião do professor? Na duração desse devaneio, recordo a gentileza e a finesse de Guimarães Rosa, numa entrevista dada na Alemanha, dizem, em 1962. O homem é de uma polidez que chega a fazer chorar, de inveja. Entre as muitas perguntas feitas, o autor encontrou maneira de falar de seu Grande sert...

O adeus ao sr. Barata

Imagem

BSM Entrevista Sergio Tavares

Imagem

Billie Holiday - When You're Smiling

Imagem

Bolsonaro voando, as pérolas da semana, Barroso tendo que se explicar e ...

Imagem

Capítulo de livro III

Imagem
  Ainda sobre a Nelida. Anos depois ela se vingou. Numa publicação que editou, não incluiu um texto meu, apresentado e aprovado. Num encontro casual, perguntei o porquê. Ela disse, com a sobrancelha esquerda arqueada e afinando mais ainda o bico, com o rosto recortado pelas cicatrizes do acidente, que meu texto ficaria desvalorizado no conjunto do volume. Deu um rodopio e arqueou mais ainda as sobrancelhas. Rodou a saia estampada de flores enormes, em cores quentes. Sumiu no meio das celebridades acadêmicas que a cercavam. Depois disso, mais nada, absolutamente nada. Daí comecei a pensar. A palma das mãos vai ficando engelhada. Nos pés, mais exatamente nos calcanhares, uma bolinha incômoda, vulgarmente conhecida como esporão – será este mesmo o nome? – estava lá. Lembrava que um dia, tempos atrás, um remédio fez com que desaparecesse. Mas cadê memória? Cadê lembrança? O nome escapava, acompanhada pelo tempo. Ainda assim, a esperança de poder entender o que se passara era mais forte...

Álvaro de Campos - Tabacaria (por Mário Viegas)

Imagem

Capítulo de livro II

Imagem
  Não sei dizer quanto tempo se passou desde que entrei na sala semiescura. Não estava nervoso, nem irritado. Curioso, essa é a palavra. Curioso. Fiquei andando de um lado para o ouro esperando que alguém entrasse. Nada. nenhum barulho. Nada. Cansei de ficar andando e me sentei. De repente, do nada, talvez pelo ócio, lembre-me de Nelida. Aquela balzaquiana de saias floridas, perfume doce maquiagem carregada, um tanto oleosa. Sua figura era... era... Exuberante. Não sei dizer outra coisa. Francófila. Uma dos poucos brasileiros que conseguiram defender uma tese de Estado em Paris. O ciclo romanesco dos Rougon-Macquart. Mais de uma dezena de romances. Pastas depositadas na Biblioteca Nacional de Paris, como parte do acervo do escritor francês Émile Zola. Um feito acadêmico e tanto. Ao lado de outras tantas balzaquianas que foram para a França e escreveram apenas trabalhos de conclusão de troisième cycle universitaire e voltaram para pindorama arrotando doutorados (havia um acordo ent...

Pesos e medidas

Imagem
  I Na volta das férias, na primeira aula de Língua Portuguesa (ainda se leciona isso na escola?), a professora pedia uma composição (hoje os modernos diriam  “ redaçãov): “Minhas férias”. Tiro e queda. (Eu sei, eu sei. Já não pedem mais isso. Dizem que é antiquado. Preferem pedir às crianças que escrevam sobre os impactos do divórcio de seus pais no mercado de ações. Ou ainda, pedem para escreverem sobre suas identidades  wzq∞alfatranscisantipós+metroassexuadaconvictas. É mais contemporâneo. Eu sei. Mas faz um esforço e deixa eu terminar minha historinha). Entre as redações, a professora encontra uma sui generis . “Nessas férias, fui visitar a fazenda de um amigo do bairro. Saímos no sábado pela manhã. O sol estava azul, azul, azul. A estrada era muito bonita e a mata estava verde, verde, verde. Quando chegamos, a mãe do meu amiguinho serviu um refresco que estava doce, doce, doce...”. E lá ia o autor repetindo três vezes o mesmo adjetivo para cada coisa que descrevia....

Capítulo de livro 1

Imagem
  Meu nome é Ezequiel. Para ser sincero, não tenho sobrenome. Meu pai desapareceu meses antes de eu nascer. Minha mãe não quis me dar o nome dele. Então, chamo-me Ezequiel. E só. Estou num lugar que não conheço. É todo cimentado. Tem uma janela grande e gradeada mais para o alto da parede que deve medir uns dois metros e meio. Não tenho condições de medir com exatidão. São 8 passos no lado mais comprido e 5 passos, no mais curto. Neste, diametralmente oposta à janela, há uma porta de ferro com duas janelinhas. Ainda não consegui descobrir para que servem ou, se descobri, neste exato momento não me lembro. Há tanta coisa de que não me lembro . Para quem entra neste espaço, à direita há uma espécie de balcão, a um metro e meio do chão, também de cimento, à direita. Está repleto de livros e papéis. Não posso garantir sua origem, nem propriedade. Uma cadeira e uma luminária completam a “decoração”. Do lado esquerdo, há uma cama, também cimentada à parede, a uns oitenta centímetros do c...

Parábola

Imagem
  A vastidão da página em branco clama pela mancha escura da letra, rasura do sentido. As ideias não fluem, permanecem escondidas aguardando um solavanco do tempo para saírem de seu miasma e emergir em desenhos múltiplos. Assim cismava o poeta, observando o espetáculo do mundo debaixo de chuvas torrenciais que insistiam em não parar. Jamais. E nada parecia mudar. O que não incomodava mais o poeta que, cético, já não via mais razão para tanto, dado o fluxo do tempo que continuava célere. Cismava e lembrava, quando vieram perguntar sobre o novo extrato a ser fabricado. Disseram que havia, pelo menos, onze cidadãos do reino a tentar o preparo exato, eficaz e seguro do extrato. Produto essencial que substituiria antigo cristal, consumido avidamente pela população, sem mais condições de ser encontrado. O encontro do horizonte com o mar delimitava o campo de visão do povo daquele reino e, por seu imaginário, nada mas além de abismos e monstros marinhos seriam encontrados a quem cons...

De outrem

Imagem
Como a preguiça é muita, ao ler o texto abaixo na página da Bevenuta Sales, fiquei tão bem impressionado que resolvi fazer dele minha postagem de hoje. PROPAROXÍTONAS Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto. As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico. Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes. As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais lúgubres. Das anônimas às célebres. Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo. Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica! Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito. É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo. O inclinado e o íngreme. O irregular e o áspero. O grosso e o ríspido. O brejo e o pântano. O quieto e o tímido. Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice. Uma coisa é estar ...