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Mostrando postagens de fevereiro, 2022

Sarcasmo

Uma vez mais, o texto que segue não é de minha autoria: por isto, as indefectíveis aspas! Como da outra vez, sei quem é o autor, mas prefiro não mencionar seu nome para não ensejar celeumas. Não quero meu nome em bocas de matildes e de detratores disso ou daquilo. Não me quero associado a um lado ou a outro, por conta de palavras que não são minas. Resolvi trazer aqui esta pérola porque o texto é isso mesmo, uma pérola de sarcasmo, ironia, deboche, galhofa e, de quebra, é um texto muito bem escrito. Pensem o que quiserem e queimem um pouco mais de fosfato para descobrir quem é o autor. Hão de se surpreender! E tenho dito! “Desejando ardentemente admitido em rodas de intelectuais, pus-me a estudar os temas e a linguagem das publicações culturais e das entrevistas que as pessoas reconhecidamente letradas davam na TV. Meu intuito era saber os gostos e hábitos dessa gente, sem cuja companhia e aplauso a vida humana é, como todo mundo sabe, um tédio, um saco, um inferno. Após alguns meses d...

Referência

Li o livro de uma sentada. Abri e fui até o fim, numa tarde apenas. Devo confessar que o li com vivo interesse. D princípio ao fim. No entanto, não sei dizer se gostei ou não. O interesse não levou à surpresa. Esta, por sua vez, não estimulou a  jouissance   que costuma acompanhá-la, pelo menos, algumas vezes. não. Li com interesse e só. Será isso um defeito do livro ou uma lacuna na/da leitura? Vou morrer sem saber. Nélida Piñon, nas orelhas do volume, traz Machado de Assis como matriz do modus operandi do livro que li. Terá sido a expectativa criada por esta ilação – também ela fruto de leitura... – a responsável por esta sensação indefinível que me ficou ao terminar o romance? Sim. Trata-se de um romance, ainda que as características mais comuns, tradicionais, clássicas deste exemplar do gênero narrativo não estejam presentes no arsenal narratológico utilizado pelo autor. Brasileiro, diga-se de passagem. Como a referência assinalada pela autora das orelhas. Ainda que tenha ...

Uma carta

O texto que segue é uma carta. Não fui quem a escreveu. Cortei os nomes citados para preservar a intimidade dos envolvidos. Cortei outros nomes e indícios identitários pelo mesmo motivo. Quis colocar esta carta aqui pelo sabor, a fineza da ironia, a suntuosidade da linguagem, o vigor do sarcasmo e a inteligência demonstrados pelo autor da carta. Mantive o local e a data, retirando o “endereço” para manter um certo clima de suspense. A referência é implícita. O movimento é o de metonímia, por aproximação, contingência, não comparação/substituição. O leitor, se bem-informado, estará mais bem equipado para tentar identificar as peças que faltam. O quebra-cabeça é divertido. Eu, simplesmente, adoraria ter escrito uma carta como esta para um certo número de destinatários, por conta de uma série de motivos. Mas já não o farei, por decurso de prazo e por estar gozando do ócio criativo que tanto prazer e gratificação me dá! Puntoi i basta . Segue a carta. “Rio, 10 de fevereiro de 1996. Ilm...

Começo

O texto que segue, eu o escrevi de uma sentada agora no finalzinho do dia Fiquei pensando num romance. Aparentemente, policial, mas eu não o quero assim. Fui escrevendo sem pensar muito, deixando fluir as ideias que me vinham. Parei com dois parágrafos e resolvi colocá-lo aqui como uma proposta, um convite, quase um desafio. Todo mundo sabe que o romance, como gênero narrativo, teve nos jornais, uma de suas primeiras manifestações materiais no mundo moderno. O famigerado "folhetim" fez muito sucesso. Algumas vezes, ao longo da História, mais de uma pessoa participou da confecção destes folhetins, simultaneamente. A proposta, o convite, o desafio: cada leitor deste trecho escreve dois parágrafos dando continuidade aos que eu escrevi. Ao fim de um tempo, teremos material, quem sabe, para consolidar o tal romance a inúmeras mãos. Tenho certeza quase absoluta de que  convite, o desafio, a proposta vai morrer na casca. Ainda assim, eu tento. Quem quiser que se habilite. Segue o te...

Um poema

Não gosto de poesia de ocasião. Aliás, não gosto de Literatura de ocasião. Mas é isso, não gosto quem quiser que o faça. Entretanto, fiz esse poema... de ocasião. Alerta   Enquanto isso... flores morrem, solitárias num jardim abandonado: o jardineiro não pode sair de casa e contaminar o ar.   Enquanto isso... a capelinha é invadia: o ritual não ascende a alma, dizem rebaixa o espírito.   Enquanto isso... dar adeus poder engano: quem vê pensa que é outra coisa e adeus!   Enquanto isso... O verso desaparece da linha a página continua em branco a procurar o par de olhos que ao vai acompanhar até onde?   Enquanto isso...  

Retalhos

“Um bando de gente suja, suada, malvestida e fedorenta. Um amontoado de gente assim num lugar que mais parecia uma gruta. Eu tinha que passar no meio desse grupo, barulhento. Ofereciam-me carona, cigarro, bebida. Eu sentia nojo e tentava me desvencilhar. Tinha que chegar ao noviciado. O quarto era amplo, claro, limpo. Portas grandes, janelas enormes. Dava de frente para um prédio de apartamentos. A secretária ofereceu-me ingressos para um vernissage à noite. Não o aceitei. Disse que tinha outro compromisso. Voltei para o quarto e procurei por minha mala. Um rapaz muito atencioso veio me atender, enquanto passava pano no chão. Não encontrava minha mala e, ao mesmo tempo, estava no meio da gente suja, vestida e malcheirosa de antes. A secretária sorria. Eu tentava fechar as janelas do quarto. As cortinas (persianas verticais) não funcionava. Não escondiam as miríades de pessoas assentadas na. mureta da rua à espera do ônibus, bem à frente da minha janela. E a secretária sorria. O rapaz p...

Besteira

Recebi o texto que segue de um/a amigo/a, já não me lembro quem. Tenho certeza de que ele/a não fica ofendido/a pelo meu esquecimento. No entanto, devo dizer que algumas reações me causaram espécie. Uma, em particular, de outra amiga, que diz que estava gostando do texto até que percebeu que se tratava de um texto político. Comecei a rir. A pergunta seria: qual texto não é político? Claro está que “político”, aqui, tem a ver com o conceito de procedimentos, atitudes, relações e correlações no âmbito da cidade, como queriam os gregos – se eu não comento equívoco de interpretação. Não se trata de partidarismo ideológico. No entanto, devo também asseverar que, ao final deste mesmo texto, há uma referência, digamos, discursiva a este recorte conceitual do mesmo termo: “política”. Vá lá..., ninguém é de ferro. Outra reação também foi um tanto engraçada, apesar de repetitiva. O sujeito disse que até a menção à política – no sentido mais restrito, aqui – o texto era uma aula de Português. A p...

Suspense

“No sumário, não havia sequer uma indicação de que tal assunto poderia vir a ser tratado no texto do livro. Igual ausência era notada no índice remissivo. De acordo com os “entendidos” estes dois índices eram necessários para a validação do livro na lista de publicações daquele ano. Em vão. Incontáveis horas de leitura, riscando trechos inteiros, anotando palavras-chave pelas margens da mancha tipográfica. Discussões intermináveis com o supervisor. Interpretações, as mais inesperadas, com os estudantes. Nada. Em vão. O livro não valia nada, mas estava escrito. O que fazer? O burburinho foi grande. Havia rumores de que uma rusga antiga entre o editor e o autor teria sido o motivo da encrenca. Outros diziam que outra pessoa havia escrito o livro que foi roubado para ser lançado. Nada ficou muito bem esclarecido. O que sucedeu foi que a cópia do arquivo com o índice remissivo foi perdida. A apuração não chegou a nome algum, mas ao fim, o arquivo foi encontrado. Em seguida, nova querela. O...

Chatice

Não há medida certa. A intuição parece ser o melhor critério. O insondável mundo do desejo não se revela inteiro, de uma vez. Aos pedaços, deixando rastros aqui e ali, incomodando mais adiante, a gente vai se dando conta de que ele está ali, atento. Edaz, não se contenta. quanto mais se satisfaz, mais quer, mais busca, mais atormenta. Em que pese a rima que não anima, o desejo pode sempre vencer, pois é de seu feitio assim ser. E, no entanto, não se explica. Não se sente obrigado. Nessa toada, continuo a perguntar: Para quê? Escrever? Quem vai ler? Mas não há tranquilo proceder quando de escrever se trata. A cada dia, a dúvida se renova, mesmo com os amigos elogios. Esses não contam, mas são os que sustentam a persistência. Dois ou três dizem alguma coisa. De resto, a poeira assenta e patina o papel que enruga, amarelece, esfarinha. O tempo. Não acredito que alguém possa “ensinar” a escrever. Não no. sentido em que estou pensando. Que sentido é esse? Cabe a quem me ler tentar descobrir...