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Mostrando postagens de julho, 2019

Dois por um

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I No dicionário Houaiss encontramos, no verbete “gozo”, lê-se o seguinte: ato de gozar; satisfação, prazer: estado que resulta da satisfação de uma atividade física, moral ou intelectual; posse ou uso de uma coisa. Como regionalismo da Língua Portuguesa, significa coisa engraçada, divertida; graça, prazer sexual; orgasmo, deleite. Já no Dicionário de Psicanálise (Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, Rio de Janeiro, Zahar, 1998, com tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães, p. 219), no início de similar verbete, lê-se a seguinte observação: “ Raramente utilizado por Sigmund Freud, o termo gozo tornou-se um conceito na obra de Jacques Lacan. Inicialmente ligado ao prazer sexual, o conceito de gozo implica a ideia de uma transgressão da lei: desafio, submissão ou escárnio. O gozo, portanto, participa da perversão, teorizada por Lacan como um dos componentes estruturais do funcionamento psíquico, distinto das perversões sexuais. Posteriormente, o gozo foi repensado por...

Ella Fitzgerald - Cry me a river

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Projeto

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1 Comecei hoje, agora à tardinha a concretizar um projeto que me veio assim, do nada, de repente, à cabeça. Dei o nome de “poesia molecular”. Uma imagem aleatória e um verso, que pode ser uma oração ou um simples sintagma nominal, ou um ver, ou... Não há intenção direcionada. Não há indução. A primeira postagem foi um sucesso, para mim. As reações, hilárias, a meu ver, fizeram o efeito que eu não esperava. Porque eu, de fato, não tinha nenhum objetivo secundário, a não ser postar a imagem com o verso e esperar a reação. Não é corrente. Não é jogo. É m projeto. Não é esta a palavra que se usa quando, pretensiosamente, alguém pensa que está fazendo algo absolutamente diferente. Sim, diferente. E só. Porque original é impossível. Faz tempo que é impossível dar expressão à originalidade, de qualquer espécie, em qualquer campo, com quaisquer instrumentos... Eu queria escrever sobre a história do homem que foi ao hospital com dores nos rins. Lá tiraram um de seus rins para uma bióp...

Do Norte

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Lembro-me, muito bem, daquela tarde. Dona Aglaêda começou a aula comentado da alegria de ter chegado em sua casa o volume da Plêiade , com as obras de Marcel Proust, au grand complet . Estava esfuziante. Comentou da alegria de ler o autor em sua língua original e da importância de ler, ler sempre, e mais. Ler. O curso versava sobre a Literatura Brasileira a partir de Guimarães Rosa, a partir de 56. Era uma versão personalíssima de Dona Aglaêda para o período da História da Literatura Brasileira, a partir de 1956. Pois bem. Dentre os livros, ela indicou uma obra que eu não consegui ler à altura. Não encontrei o volume nas livrarias de Brasília e não havia nenhum sebo virtual então. Anos depois comprei o dito livro. Acabei de lê-lo hoje. Comecei ontem e não consegui parar hoje. Fica uma constatação: existe uma versão amazonense do Grande sertão: veredas . Não se trata de apropriação. Não se trata de “obra baseada em...”. Não se trata de plágio ou cópia. O livro é originalíssimo e, aind...

Possibilidade

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“Valério foi um homem de bem. Ele era casado com Iracema e teve cinco filhos: Luíza, Regis, Maura, Anderson, Valdemar e Silésio. Era descendente de alemães. O pai dele era de Bremen e a mãe de Dresden. Ele nasceu em outra terra, do outro lado do mar: Santo Anselmo. Numa terra linda, vermelha, rica em nutrientes, fértil. Fez de tudo um pouco, na infância, adolescência e juventude, para ajudar a família. Mudou-se para uma cidade maior e tornou-se padeiro. Foi assim que ele criou sua família. Uma família grande, de gente alta, de pele branca, olhos claros traços finos. Toda a família era muito ciosa de seus valores e se vangloriava de sua origem, de sua ascendência. Luíza teve uma filha e depois ficou viúva. Regis, que teve dois filhos, divorciou-se algum tempo depois de casada. Maura era diferente, triste, reclusa, tímida, muito diferente de todos os irmãos. Teve um filho também que, depois de adulto, tornou-se artista plástico de sucesso na Europa oriental. Anderson continua casad...

Poema

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Homenagem Basta uma nota só faltar e o mundo desaba. A nota tem nome comum, é renitente. Repete e é repetida, renitente. Falta ela e o mundo desaba. Fica só a falta... o silêncio. Chega de saudade.

Vergonha

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Então é assim. Você consegue um emprego e começa a contribuir para a seguridade social. Boa parte de seu salário é corroída por esta contribuição, sustentada pela promessa de um “ressarcimento justo” com a aposentadoria. Daí, a partir de certa idade, o sujeito que contribui a vida toda é OBRIGADO por lei a se apresentar anualmente na agência bancária em que recebe o “benefício” – a sordidez é tanta que ainda se mantém essa aberração lexicográfica e semântica a sustentar discurso canalha. A obrigatoriedade é pretensamente justificada sob a alegação que o “sistema” tem que verificar a efetiva existência do sujeito “beneficiado”. É a famigerada “prova de vida”. Ontem foi noticiada a morte de um senhor de 90 anos, debilitado e acamado por conta de uma epidemia, que teve que ser levado ao banco nos braços do filho para fazer a tal “prova”. A alegação é a de que o “gerente” do banco disse que poderia sair da agência para fazer a “prova”. Pois é. Depois que o homem morreu, o banco dis...

É o que temos pra hoje...

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Dois poemas que dizem quase o mesmo. São similares, para não dizer que são iguais... Resíduo De tudo ficou um pouco Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco. Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos pouco, pouco, muito pouco. Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço ― vazio ―  de cigarros, ficou um pouco. Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato. Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte, no bar...