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Mostrando postagens de outubro, 2020

Parábola

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  A vastidão da página em branco clama pela mancha escura da letra, rasura do sentido. As ideias não fluem, permanecem escondidas aguardando um solavanco do tempo para saírem de seu miasma e emergir em desenhos múltiplos. Assim cismava o poeta, observando o espetáculo do mundo debaixo de chuvas torrenciais que insistiam em não parar. Jamais. E nada parecia mudar. O que não incomodava mais o poeta que, cético, já não via mais razão para tanto, dado o fluxo do tempo que continuava célere. Cismava e lembrava, quando vieram perguntar sobre o novo extrato a ser fabricado. Disseram que havia, pelo menos, onze cidadãos do reino a tentar o preparo exato, eficaz e seguro do extrato. Produto essencial que substituiria antigo cristal, consumido avidamente pela população, sem mais condições de ser encontrado. O encontro do horizonte com o mar delimitava o campo de visão do povo daquele reino e, por seu imaginário, nada mas além de abismos e monstros marinhos seriam encontrados a quem cons...

De outrem

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Como a preguiça é muita, ao ler o texto abaixo na página da Bevenuta Sales, fiquei tão bem impressionado que resolvi fazer dele minha postagem de hoje. PROPAROXÍTONAS Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto. As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico. Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes. As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais lúgubres. Das anônimas às célebres. Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo. Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica! Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito. É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo. O inclinado e o íngreme. O irregular e o áspero. O grosso e o ríspido. O brejo e o pântano. O quieto e o tímido. Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice. Uma coisa é estar ...

O.MS dizendo o que a gente já sabia e o resumão do Dória que fez o supremo.

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De quem?

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Não sei quem escreveu o texto que segue. Trago-o aqui porque li-o como um exemplo de contundência inquestionável! “Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais Virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos Bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem. Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himeniais dilacerados, e os pais internaram a pecado...

De novo

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Uma vez mais, faço a mesma coisa. Com vontade de escrever, mas sem a menor ideia de como desenvolver qualquer ideia, sentei-me diante do computador e comecei a escrever o que me vinha à cabeça. Sem retoque, sem revisão, sem releitura. Saiu isso: O olhar enviesado do ciclista não acode para o perigo que o ronda na estrada pedregosa que se alastra poeirenta entre o vale e a escarpa, longe da civilizada marcação na posta asfáltica, na qual acostumado estava a transitar. Menos ruim. O risco é o mesmo mas as probabilidades diferem, em ambas as direções. Os pontos cardeais já não servem para a orientação alguma, nada, lugar nenhum e o caminho não leva a coisa que valha a penas, mas traz o motorista que cego pela indiferença, deboche do motociclista que se emaranha entre os carros, costura a avenida em pequenas curvas sinuosas, se atirando intrépido e estúpido a uma corrida sem vencedores. Ele não sabe que o motorista ultrapassado o despreza: quanto mais pobre, mais fino o...

Quotidiano

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  Tempo seco. As folhas secas cobrem o chão pra todo lado. Vento quente. Tempo seco. Sol escaldante. Alma seca. Preguiça de tudo. O tempo que passa e a mesmice que impera. Os gritos e as fanfarras vomitando verdades e autoridades. O brado dos indesejados. O grito dos desfavorecidos. O calor. O tempo quente. O tempo seco. A alma seca. Isso era para ser um poema, mas não é. Não vai ser. Pode ser. Quem sabe? Não há, aqui, ninguém que o saiba, que o   possa afirmar. Ainda assim as páginas se enchem da soberba que vocifera verdades relativas. Opiniões nem sempre arrazoadas. O fulgor da sanha invejosa que tenta anular a fala alheia. Nada do que vem do outro lado serve. Qualquer que seja o lado. A premissa é a mesma. A conclusão nem sempre. Tempo seco. Alma seca. A poesia que não se escreve. O tempo que passa e não se escreve. A história que não se conta, mas se escreve. Ou, por outra, que se conta e que se escreve. A possibilidade existe. Tempo seco. Alma seca. Ouvias mas mesmas coi...

Sem pensar

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  Pensei em escrever um poema. O calor está demais. A secura beira o insuportável. Sentei-me e comecei a digitar sem pensar. Pensei em colocar na tela o que me vinha na cabeça para depois pensar no poema, na sua construção, na sua montagem. Não fiz correção nem reescrevi nada. Só deixei fluir do pensamento para a ponta dos dedos. Saiu isso: Desce do morro a velha que sem saber por que tem as partes expostas contra sua vontade Sob o calor de deserto que sopra o hausto quente e rugoso, chora sem saber que de nada adiantam seus gritos. Adeus diz alguém que passa e olha e nada faz Reza em silêncio, mas nada faz e vai embora deixando a velha suja e rota a lamentar-se de sua própria sorte, que sorte não era, mas aconteceu de ser, assim, de repente, sem seu consentimento. À força. Quem assim fez, parece, não se arrepende e repete pois continua na estrada sob poeira e sol a contar vantagem e a repetir o ato, sem medir consequência. Nada. Apenas o ato impensado que urge, tuge e muge...