Uma carta
O texto que segue é uma carta. Não fui quem a escreveu.
Cortei os nomes citados para preservar a intimidade dos envolvidos. Cortei
outros nomes e indícios identitários pelo mesmo motivo. Quis colocar esta carta
aqui pelo sabor, a fineza da ironia, a suntuosidade da linguagem, o vigor do
sarcasmo e a inteligência demonstrados pelo autor da carta. Mantive o local e a
data, retirando o “endereço” para manter um certo clima de suspense. A referência
é implícita. O movimento é o de metonímia, por aproximação, contingência, não
comparação/substituição. O leitor, se bem-informado, estará mais bem equipado
para tentar identificar as peças que faltam. O quebra-cabeça é divertido. Eu,
simplesmente, adoraria ter escrito uma carta como esta para um certo número de
destinatários, por conta de uma série de motivos. Mas já não o farei, por
decurso de prazo e por estar gozando do ócio criativo que tanto prazer e
gratificação me dá! Puntoi i basta. Segue a carta.
“Rio, 10 de fevereiro de 1996.
Ilmo. Sr. (1) – (...)
Prezado senhor,
Escrevo-lhe sem a menor ilusão
de ver minhas palavras publicadas, ao menos sem cortes estratégicos que,
extirpando delas toda a sua substância argumentativa, as reduzam a mero
pretexto para dar um ar triunfante a qualquer resposta idiota que se estampe ao
seu lado.
Na verdade, não escrevo esta
carta para sair na (A), mas para fazer dela mais um capítulo de meu livro em
elaboração, (B), a sair ainda este ano, obra inteiramente consagrada, como se
vê pelo título, ao estudo das manifestações cerebrais de pessoas como V.Sa. Eis
o motivo por que lhe remeto estas linhas. Julguei que não ficaria bem publicar
este capítulo sem dar prévia ciência dele ao personagem: seria fazer de besta um
sujeito que já se faz de besta por si – uma redundância intolerável, esteticamente.
E caso V.Sa. fareje em minhas palavras uma intenção um tanto desrespeitosa,
saiba que suas células olfativas não o enganam de todo. Mas não vá me dizer que
está ofendido. Pois o assunto de que pretendo lhe falar é o artigo de sua
autoria, ‘(C)’, e não posso crer que V.Sa., ao escrevê-lo, julgasse estar
fazendo coisa digna de respeito. Inocência tem limites.
Não posso crer, por exemplo, que
V.Sa., ao reduzir a reputação literária de (2) a mero efeito do deslumbramento
provinciano ante as amizades internacionais do poeta, ignorasse realmente a
distinção entre ser amigo de escritures célebres e receber louvores
críticos de escritores célebres. V.Sa. retrata (2) como ‘uma figura típica
do nosso meio literário – o amigo de notáveis’, e cita dois casos similares:
Gerald Thomas, o antigo de Samuel Beckcett, e Diogo Mainardi, o íntimo de Gore
Vidal. Mas não consta que Beckett ou Vidal tenham atestado jamais a qualidade
artística das obras desses seus amigos. Nem é verossímil que nossa plateia, por
mais caipira que fosse, se impressionasse antes com as amizades VIPs de
Tolentino do que com os louvores à sua obra, firmados por Jean Starobinsky,
Saint-John Perse e Yves Bonnefoy, entre outros. É uma distinção elementar, que
não pode ter escapado a V.Sa., embora V.Sa. tentasse o possível e o impossível
para fazê-la escapar dos olhos do público.
Também não posso crer que V.Sa.,
não sendo nem um pouquinho cabotino, acredite seriamente que é mais provinciano
dar crédito ao juízo crítico de Bonnefoy ou Starobinsky que ao de (1).
Menos ainda posso admitir, a
sério, que V.Sa., enxergando tanto provincianismo no encantamento da plateia
local ante as amizades célebres do poeta, não visse nenhum na incredulidade
caipira que as põe em dúvida.
Porém, o mais inadmissível de
tudo, excluída a hipótese de uma inocência patológica, é que V.Sa. ache
realmente típico do provincianismo nacional o fato de darmos acolhida a
recomendações críticas que, antes, foram aceitas em Bristol, Essex e Oxford;
pois isto equivaleria a dizer que tais localidades, antecedendo-nos no
deslumbramento bocó ante uma obra que só vale pela autopromoção, são ainda mais
tipicamente brasileiras e caipiras do que Rio e São Paulo. Também é
inverossímil supor que, no entender de V.Sa., Starobinski e tutti quanti
escrevessem louvores a (2) no propósito de fazê-los acreditar pelo público
brasileiro, em vez do europeu a quem se dirigiam e a quem, na época, se
destinava toda a produção escrita do poeta; pois é essa hipótese maluca que
está subentendida quando V.Sa. diz que os crédulos somos nós, e não os europeus
que antes de nós aplaudiram (2); ou essa, ou uma outra mais maluca ainda, segundo
a qual não somente os três figurões citados, mas ainda W.H. Auden e Giuseppe
Ungaretti, teriam elogiado a poesia de (2) por pura amizade, abdicando de toda
probidade crítica e armando um monumental engodo do qual teria vindo
libertar-nos, por fim, o tirocínio providencial de (1). E enfim, não pode ser
que V.Sa. imagine, no pleno uso de seus neurônios, que os meios literários
nacionais foram tão subservientemente caipiras ao ponto de esperar pela
consagração europeia para reconhecer um poeta brasileiro, se na década de 60,
antes do exílio europeu, ele já estava mais que consagrado aqui mesmo pelo
aplauso de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo, Ênio Silveira
e mais não sei quantos.
Não: ninguém pode acreditar que V.Sa.
escreva essas coisas a sério.
Mas V.Sa. vai mais longe.
Diz-nos que enxerga, nos versos de (D), uma poesia que é, ao mesmo tempo, ‘de
costumes’ e ‘escrita por um simbolista tardio’. Devemos crer então que um
professor de literatura da USP ignora as definições de estilos de época? Que
não sabe que literatura de costumes não existe no simbolismo?
Mas, não contente com isto, V.
Sa. ainda nos diz que essa literatura de costumes descreve ‘a aventura
espiritual de uma consciência cristã’, como se fosse possível uma autoridade intelectual
do seu porte ignorar que toda literatura de costumes é, por definição, alheia a
essas altitudes místicas. Ou será que ignora mesmo? Afinal, o escritor que
conseguisse inventar uma coisa como a literatura de costumes simbolistaespiritualista
teria mesmo operado um tour de force digno dos louvores de muitos
Starobinskis.
Aí os termos do problema se
definem melhor: ou V. Sa. está com tretas, ou é um ignorante muito metido a
besta.
Esta última hipótese é reforçada
por alguns indícios, como por exemplo o fato de que V.Sa., no tom de quem fala
a coisa mais óbvia e arquissabida, qualifique Alberto Torres de ‘conservador’,
ignorando toda a linha de investigações que, inaugurada há mais de trinta anos
por Barbosa Lima Sobrinho, já mostrou a falácia dessa rotulação.
Outro indício é que qualifica de
atrasado no tempo o engajamento político de (E), mostrando que não leu sequer
as datas de composição dos poemas, que atestam sua contemporaneidade aos
acontecimentos que os inspiram. Também indica que V. Sa. não leu (E) o fato de
que acuse o autor de ‘ignorar as relações entre o exílio individual e o processo
político coletivo’, quando essas relações constituem precisamente o único tema
do livro. Talvez V. Sa. queira dizer que elas não são como o livro as descreve,
mas neste caso deveria dar-nos alguma ideia, por vaga e alusiva que fosse, de
como elas são na real idade, mas V. Sa. se abstém criteriosamente de tocar
neste ponto, o que me leva a suspeitar que as ignora por completo.
Há fortes argumentos, também, em
favor da hipótese das tretas. Pois treta, treta mesmo (se não é quid pro quo
verbal de quem simplesmente não sabe escrever?), é dizer que (2), ao atribuir a
uma freira do século passado a autoria de seus poemas de feitio clássico, se ‘ocultou
sob uma máscara moderna’. V. Sa., digo eu, ainda não viu nada: de mais moderna
ainda se fez Marguerite Yourcenar, que se disfarçou de imperador romano.
Mas não são só (2) e Yourcenar
que atribuem suas palavras a outrem. V. Sa. também sabe fazer isso, como se vê
pelo fato de que, explicando a fama literária de (2) exclusivamente pelas amizades
e pela autopromoção cabotina, escreve também que ‘vez por outra, alguém ameaça
desmascarar o suposto charlatão’, procurando dar a impressão de que são outros
e não V. Sa. quem faz, a um tempo, ameaça e suposição.
Ora, quem é tão hábil não pode
ser ao mesmo tempo tão besta, a não ser que possua essas duas qualidades em
planos diferentes. Pois a mim me parece que é precisamente esta a solução do
problema acima exposto: V.Sa. tem de ignorante e besta em literatura o que tem
de destro e arguto na maledicência.
Mas, tal como a inocência, a
destreza tem limites. Por mais que salte com a habilidade de um babuíno de um
pretexto ao seu contrário, V. Sa. mostra enfim que não tem nada mais a nos
transmitir, no fundo, senão isto: que não gosta muito do poeta, mas não sabe
muito bem por que não gosta. E se para expressar este sentimento tem de armar uma
tamanha rede de equívocos e contrassensos, é porque é próprio do ser humano,
quando embirra com alguém por motivos irracionais, inventar contra ele toda
sorte de argumentos contraditórios que o condenem per fas et per nefas.
Pois a única objeção crítica
propriamente dita que, por trás de todo o seu palavrório, V.Sa. faz à obra
poética de (2), é que, além de arcaizante na forma, não é muito progressista no
conteúdo. O quanto vale esta objeção, no entanto, evidencia-se pelas seguintes
linhas, publicadas num editorial do jornal do Partido Comunista trinta e três
anos atrás, que condenava o simplismo crítico das classificações bipolares: ‘Segundo
este esquema, tudo o que temos de fazer é classificar as pessoas, os atos e os
fatos em ‘revolucionários’ ou ‘reacionários’. Feito isto, está concluída a ‘tarefa’.
Como poderemos compreender o realidade, mantendo esta atitude?’
Trocando apenas as palavras ‘reacionário’
e ‘revolucionário’ pelos seus equivalentes da moda, ‘conservador’ e ‘progressista’,
temos aí um perfeito retrato do método crítico de V.Sa., tão grosseiro e
simplório no seu esquematismo, que três décadas atrás já era desprezado até
pelos comunistas de carteirinha. Vá ser arcaizante assim lá em Oxfordgrado.
Para terminar estas
considerações, desejo aliviar a tarefa de V. Sa., dando-lhe prontas algumas das
motivações sórdidas com que poderá explicar, numa resposta fulminante, minha
decisão de escrever-lhe a presente carta:
1. desejo fazer crer
ao público que sou membro do círculo VIP de (2);
2. desejo, mutatis mutandis, fazer autopromoção às custas de
um (1) como (2) fez com o outro;
3. não me aguento (...) de vontade de sair no (...);
4. tenho com o poeta (2) um convênio de Inter badalação e
defesa mútua das nossas reputações;
5. eu e (2) formamos em segredo um casal gay;
6. (2) me pagou para escrever estas coisas, ou, pior ainda,
prometeu e não pagou;
7. escrevo-as de graça por ser um puxa-saco compulsivo;
8. não existo e sou um pseudônimo de (2);
9. (2) não existe e é um pseudônimo deste que ora se despede de V.Sa.,
Atenciosamente, (3).”
Comentários
Postar um comentário