Sem pensar
Pensei em escrever um poema. O calor está demais. A secura beira o insuportável. Sentei-me e comecei a digitar sem pensar. Pensei em colocar na tela o que me vinha na cabeça para depois pensar no poema, na sua construção, na sua montagem. Não fiz correção nem reescrevi nada. Só deixei fluir do pensamento para a ponta dos dedos. Saiu isso:
Desce do morro a velha que sem saber por que tem as partes
expostas contra sua vontade
Sob o calor de deserto que sopra o hausto quente e rugoso,
chora sem saber que de nada adiantam seus gritos.
Adeus diz alguém que passa e olha e nada faz
Reza em silêncio, mas nada faz e vai embora deixando a velha
suja e rota a lamentar-se de sua própria sorte, que sorte não era, mas
aconteceu de ser, assim, de repente, sem seu consentimento. À força.
Quem assim fez, parece, não se arrepende e repete pois continua
na estrada sob poeira e sol a contar vantagem e a repetir o ato, sem medir
consequência. Nada. Apenas o ato impensado que urge, tuge e muge, no silêncio
do deserto em que se transformou a cidade.
O som das rodas dos carros a levantar poeira, contrasta com
o grito rasgado das carroças puxadas por bois chifrudos e magros que nem força
têm para mugir.
O silêncio é tudo, apesar d barulho quando, com a noite que
cai, o escuro vem acompanhado de avantesmas secos e estalidos agudos a quebrar
a pasmaceira de mais um dia que se caba sob o calor escaldante do lugar. Lugar
em que não faz frio, quase não chove e que não muda em sua arquitetura bizarra
de pau e barro, colorido esmaecido pelo constante tisnar do astro rei.
Corre o menino a contar à mãe o acontecido na tarde de já ficou
pra trás, já é passado e traz a lembrança da velha que não chegou.
O desespero toma o lugar da tranquilidade caseira do
doméstico compasso de requentar o café e engrossar o caldo de farinha para a
janta, a pobreza não tem apetite.
A notícia antecipa o mais escuro da noite que, com a chegada
da velha, ou melhor, com a chegada do que restou da velha, tem a dona quebrada
sua rotina o que lhe dá engulho, revolta e medo. Mas a vida passa e mais uma
noite acaba quando, no clarear do dia, mais um dia quente e seco, a mulher sai
pra cacimba. Colhe os ovos, faz o café ralo e esquenta o leite. A esperança é
artigo de luxo e não acompanha a agonia da velha que dorme cansada, ainda sem
cura e crente que nem tudo de ruim aconteceu...


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