Parábola

 


A vastidão da página em branco clama pela mancha escura da letra, rasura do sentido. As ideias não fluem, permanecem escondidas aguardando um solavanco do tempo para saírem de seu miasma e emergir em desenhos múltiplos. Assim cismava o poeta, observando o espetáculo do mundo debaixo de chuvas torrenciais que insistiam em não parar. Jamais. E nada parecia mudar. O que não incomodava mais o poeta que, cético, já não via mais razão para tanto, dado o fluxo do tempo que continuava célere. Cismava e lembrava, quando vieram perguntar sobre o novo extrato a ser fabricado. Disseram que havia, pelo menos, onze cidadãos do reino a tentar o preparo exato, eficaz e seguro do extrato. Produto essencial que substituiria antigo cristal, consumido avidamente pela população, sem mais condições de ser encontrado. O encontro do horizonte com o mar delimitava o campo de visão do povo daquele reino e, por seu imaginário, nada mas além de abismos e monstros marinhos seriam encontrados a quem conseguisse lá chegar. Já nesse tempo, as utopias circulavam, escondias nas sombras da dúvida, fugidias e fugazes, mas permanentes e sempre ativas, a cativar a imaginação não apenas das crianças. O rei, muito preocupado em se livrar de acusações diárias, já não via como contornar mais uma crise. Os produtores de extrato não se calavam e disseminavam as mais controversas mentiras e invenções com o simples fito de confundir os reinóis e deixá-los boquiabertos: de curiosidade e de medo. A cada dia, uma acusação nova e cada uma mais estapafúrdia que a outra. Se dizia A, os noticiários diziam que disse B. Quando dizia B, os noticiários o acusavam de cópia, de falta de imaginação e de criatividade. Quando afirmava o óbvio, sobre qualquer assunto, a gritaria era ainda maior, dizendo que o rei não sabia nada, que era iletrado, que guardava em si amostra de todos e cada um dos vícios mais hediondos que um indivíduo podia encontrar em sua existência. Santo, ele não era. Isso resta claro. No entanto, chegava a causar pena, a voracidade com que todos e mais um dos jornalistas atacavam o rei, babando de prazer mórbido em destruir, desautorizar, incriminar, enredar. Era cansativo. O rei, a cada dia, tinha um ar cansado, muito cansado, perto do esgotamento e tinha seus rompantes. Chegaram a ponto de afirmar que o rei se negava a aceitar o extrato que estava em estado mais adiantado de fabricação. Foi acusado de autoritário e de ignorante. De fato, o que ele disse, quando perguntado, foi que não poderia comprar nenhum extrato que não tivesse a aprovação nos testes necessários e obrigatórios de qualidade, eficácia e segurança. Mas a sanha maldita dos detratores torceu, uma vez mais, as suas palavras. O rei tinha quatro filhos. Nenhum dos quatro parecia estar interessado em outra coisa senão em manter sua posição na corte. Metiam-se em assuntos que não eram de sua competência. Opinavam sobre assuntos que escapavam à sua autoridade, a seu conhecimento. Criavam situações constrangedoras e até comprometedoras. Um inferno. Não bastasse isso, do lado de lá do palácio real, havia outro, sempre imaginariamente coberto por nuvens negras que cuspiam raios e trovões, fedendo a decomposição e sujeira. Tudo que se ouvia lá era o crocitar de uma população pequena: treze arcanos amarelos, servidos por miríades de funcionários que cuidavam de tudo: do arrastar a cadeira ao café, do carregar livros e papeis ao guarda-chuva na saída, do abrir a porta na saída e na entrada ao colocar a capa amarela. Muitos, milhares, de uma inutilidade quase absoluta. E os arcanos resolveram que mandavam mais que o rei. A cada decisão real, uma nova lei era aprovada pelo conselho de arcanos, com o beneplácito dos legisladores que, com medo de terem seus privilégios cortados, obedeciam cegamente às decisões dos arcanos. Vociferavam, vituperavam, cuspiam arrogância, altivez e desdém. Infernizavam a vida de todo o reino e exigiam para si respeito absoluto e todas as facilidades que a vida no reino podia oferecer e mais uma. Um inferno. A tudo isso o poeta observa, quieto em seu canto. Desiludido, mas confiante em si mesmo. Na sua sensibilidade de artista. Observava o espetáculo e reconhecia, a cada passo, a inutilidade de tudo aquilo. Ansiava, sempre e mais, aprimorar o risco da letra escura, na procura de saciar a voracidade da página em branco, edaz.


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