A prova da cobra


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Foi assim, da primeira vez. Era uma prova de concurso, 1991. Prova escrita. Cinco horas para fazer. Uma hora de consta e quatro horas para redação. Uma tortura. No fim, a mão e o braço já não respondem ao impulso do cérebro. A gente fica parecendo um robô com falha elétrica em seu sistema motor. Uma tortura. Mas estava lá eu. O ponto sorteado tinha por nome “A escola de Frankfurt”. E eu pensei comigo: que diabos é isso. Sinceramente, até aquele momento (e que momento!) eu jamais tinha ouvido ou lido tal expressão. Mas estava ali, na minha frente, escrito no quadro-negro (que jamais foi negro, sempre verde, a lousa, ou pedra, como já ouvi dizerem...!). Escola de Frankfurt. Fiquei sem saber por onde começar a pensar no que escrever e, pios, onde pesquisar, no meio dos tantos livros que carreguei para a hora de consulta que a prova nos dava. Nada. Eu tinha que escrever alguma coisa. Daí em me lembrei de Horkheimer, Benjamin e Adorno. Fui me lembrar de que eles, alemães, sempre se reuniam para partilhar ideias, discutir teorias, fixar axiomas para o resto da patuleia que ocupa o planeta e se acha preparada para ler e entender o que eles diziam, assim, sem grande dificuldade. Três de um grupo inumerável de schollars! Pois então. Lembrei deles e de algumas ideias deles. Lembrei da afinidade pensamento e sua relação coma tal de modernidade. Pensando nisso, resolvi argumentar que a prática do encontro frequente entre eles, fazia com que o trabalho de cada encontrasse no trabalho de cada outro certa identificação. No mínimo, os três podiam ser lidos num diapasão de Inter comunicabilidade, um diálogo de ideias e posicionamentos. Ainda que não chegassem a um denominador comum, eliminando diferenças, o pensamento dos três poderia ser considerado sob o apanágio de uma perspectiva epistemológica única comum. Decidi então dar nome a esta perspectiva: Escola de Frankfurt. A justificativa de minha escolha se assentou no fato de que esta cidade alemã era o local aos corriqueiramente escolhido para esses encontros e outros, com outros pensadores. Daí à sustentação da hipótese, o passo foi curto. Deram-me a nota máxima.
A segunda vez foi alguns anos mais tarde, 1996. De novo, prova escrita de concurso. O ponto tinha por título: “Dois aspectos da poética da dor: Alphonsus de Guimarães e António Nobre”. Que diabos era “estética da dor”? Tudo que eu sabia sobre António Nobre era que ele foi um poeta português importante. Do ouro, mineiro, conheci no colégio um soneto: “A catedral”. Mais nada. Isso era tudo o que eu tinha de informação. Tinha estudado alguma coisa sobre os dois poetas para preparação do concurso. Mas na hora agá, veio a dúvida: o que fazer com o que eu tinha estudado? O que diabos era a tal de “poética da dor”? Sabia que o mineiro escrevera poesia muito melancólica, um tanto sombria e fantasmagórica até. Bem ao gosto das brumas marianenses de seu tempo. M sofrimento calado, perdido na noite, gemido em responsos e sonetos de gosto simbolista apurado. É o que dizem. Já o português representou certa revolução na península. De formação romântica, ultrapassou as amaras simbolistas e decadentistas propondo obra que, em utilizando os recursos vigentes, projeta poética que ultrapassa limites e, em alguma medida, alarga caminhos para as portas já abertas para o Modernismo lusitano na Literatura. Havia melancolia também, mas de outro diapasão: mais atormentado, mais simbolista ainda, algo mais empírico. Foi pensando assim que resolvi nomear de “poética da dor” o exercício de expressão poética – ou exercício poético de expressão, o leitor escolhe! – da tal de dor. Estava identificada a tal poética. Acrescentei alguns comentários sobre alguns versos e voilá! Estava escrita a prova. Outra nota máxima! Ao final do concurso, com os envelopes lacrados e assinados, senti-me à vontade para perguntar à presidente da banca como foi que me deram a nota máxima para uma prova tão “montada”. E ela, com um sorrisinho matreiro disse que eu sabia me sair muito bem de situações difícil.
É por essas e por outras que sempre falei que, esgotadas todas as saídas possíveis, a carta na manga pode ser a “prova da cobra”. Trata-se de uma historinha ouvida não sei quando, contada não me lembro por quem, sem ideia de onde, que narra o que se passou com um estudante do ginasial – quem tem mais de 40 anos vai saber do que se trata, o tal de ginasial! – que se preparava ara a prova oral de Zoologia. Ele, ao começar a estudar, tinha convicção absoluta de que ia cair, como ponto de prova, os répteis. Como não tinha dúvida disso, mesmo sem saber se de fato ia acontecer desse modo, estudou o que conseguiu sobre répteis. No dia da prova, ao sortear o seu ponto, saiu mamíferos. O estudante tinha meia hora para dissertar oralmente sobre os mamíferos. Ficou apertado. E começou a falar uma coisinha aqui, outra ali e o tempo não passava, Falou, então, do elefante, mamífero interessante por conta de um apêndice, a tromba. A tromba do elefante parece uma cobra, disse o estudante. Por falar em cobra... e gastou o resto do tempo falando da cobra. Ganhou nota máxima. Foi essa a lição que aprendi e utilizei, a prova da cobra. Fica a ideia!

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