Conhecimento

Era uma vez uma gata.

A gata pariu dois gatinhos.

Um dos filhotes foi entregue para um profissional da medicina veterinária, especializado em felinos e dentre estes, os gatos domésticos. Dono de uma clínica para gatos, renomado professor universitário. autor de bibliografia incontável sobre o assunto. Jovem e promissor. Um portento!

O outro filhote foi dado para um rapaz que morava numa “comunidade” (se eu escrever “favela, vão mandar me prender, me processar, cassar meus direitos, talvez até me assassinar!). Então... O rapaz morava numa comunidade. Ele jamais estudou. Sempre viveu de bicos. Órfão de pai e mãe, vive sozinho. Sua única companhia é o gato que recebeu para cuidar. Já tinha cuidado de outros.

A minha pergunta é: qual dos dois indivíduos vai melhor tratar o gato?

Fiz esta pergunta a uma professora que me criticou por usar um exemplo do adagiário popular para explicar determinada caraterística da poesia ocidental. Fiz-lhe pensar sobre as vicissitudes do conhecimento científico e da sabedoria popular ou pensamento comum. Expressões equivalentes. Ela não me respondeu. Comentei então, concluindo, que quem poderia responder era o próprio gato. “Mas gato não fala”, emendou ela, com um sorriso de triunfo no rosto empastado de “base”. Exatamente, redargui, eu. É por isso mesmo que conhecimento científico e pensamento comum podem contribuir para tentar explicar os “comos” e os “porquês” de um ou outro indivíduo ser aquele que melhor vai tratar o felino. Similarmente, é possível operacionalizar o mesmo raciocínio para os estudos literários, sem medo de errar.

Silêncio na sala onde ocorria a arguição do concurso público de que eu era candidato.

Não vou dizer qual foi o resultado!



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