Odysseus, o Velho, Companhia editorial, Porto Alegre, 2010.
Sélesis e o Livro de Silbion,
Campo Grande, Life Editora, 2020.
“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e
restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que
foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só
me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que
perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” Este período dá início ao
terceiro parágrafo do segundo capítulo de um livro seminal: Dom casmurro.
De todas as vezes que li o romance – e o faço agora, uma vez mais, com a
publicação de nova edição (comentada) do Clube de Literatura Clássica, de que
sou sócio – a sensação de suspense insatisfeito me invade e recobre. Esta edição é interessante porque comentada. Cada entrelinha, cada
referência, cada citação. Leitura mais que gratificantes. Pois então, de todas
as vezes que li Dom Casmurro, a passagem do início do presente texto me
incomodou, fascinou, instigou. A restauração da adolescência na velhice, por
impossível, só se concretiza na leitura de qualquer que seja o romance, o
conto, o poema. Disso não tenho dúvida. A diferença da fisionomia num rosto que
permanece o mesmo, apesar das marcas de expressão e as linhas que o tempo vai marcando,
apenas atestam a passagem do tempo que a tudo recorre, a tudo recobre e sempre
está a dizer: acompanha-me ou devoro-te! A blague escapou. Por fim “falto eu
mesmo, e esta lacuna é tudo”. Esta é a pá de cal que Bentinho o
protagonista/narrador do romance joga na nossa cara fazendo deixar de lado
qualquer sombra de d´vida sobre nossa própria falibilidade ao julgar os
acontecimentos diacrônica ou sincronicamente. Ele o tentou, ainda que personagem
ficcional, e falhou. As duas pontoas que pensei em reatar aqui são
representadas, de um lado, por Odysseus, o velho; de outro, Sélesis e Livro de Silbion. Ambos de autoria de Carlos Nejar. Há um tempo, escrevi
uma resenha sobre o primeiro dele citado aqui. Nela, a certa altura, dizia: “A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante,
Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de
maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata
de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de
referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado.
Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração
poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do
gênero. No entanto, a “essência” deste mesmo gênero transparece clara e
lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de
poemas – em números variados –, remodelam a saga de um herói legendário em suas
reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a
família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando
possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor
saberá perceber em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.” A sofisticação do
edifício vocabular/poético de Carlos Nejar, no livro que resenhei por primeiro,
permanece incólume, galharda, rutilante nos dois últimas aqui referidos. Estes,
li-os em edição recente, comemorativa dos 60 anos de carreira do escritor.
Livros que não conhecia, mas que reconheci pela leitura, no prazer de navegar
pelas imagens e referências, descrições e detalhes, que a sofisticação poética
do autor oferecer a quem o ler, desde as primeiras linhas dos dois primeiros livros
publicados, até o última linha de seu último livro de poesia, Odysseus, o velho.
Na dupla reeditada, a mesma epopeia é construída, já em embrião, arriscaria eu –
tentando unira as tais duas pontas... – dado que o que se lê nos versos impressos
é do mesmo quilate do que vai ser lido na trajetória poética do retorno de
Ulisses. Em Sélesis e Livro de Silbion parece haver um grito surdo a evocar criaturas míticas
que, no contexto da atualidade, recuperam arcanos da existência humana em
articulação com os quatro elementos fundamentais. Uma aventura filosófica,
expressa em poesia e sob cuja égide passeiam ideias de Empédocles, Aristóteles
e Demócrito. O vigor telúrico das imagens é herança gaúcha – arriscaria eu – a sustentar
o discurso por vezes melancólico, por vezes heroico, das “personagens” que
passeiam pelos dois livros recentemente reeditados. No outro, o Odysseus vai comentando
as incertezas e desilusões (Será que seria mesmo apenas isso?) de sua
trajetória heroica sobre a terra. A coloração outonal dos versos deste livro
ecoam, em certa medida, a pujante poesia que se apresenta nos dois primeiros
livros publicados. Desse modo, nesse vai e vem de leituras, encontro-me no mesmo
impasse que Bentinho. No meu caso, não sinto desejo de eleger um vencedor, ou
substituir uma coisa pela outra. De fato, a minha ideia era homenagear o autor,
comentando minhas impressões 0 mesmo que imprecisas e titubeantes. A pretensão
é demasiada. No entanto, a poesia de Carlos Nejar, seja expressa em versos,
seja na sua prosa, não se ausenta um segundo sequer do horizonte de
expectativas de qualquer leitor com um mínimo de sensibilidade. A percepção se
aguça. as imagens vão surgindo. O movimento coleante da sedução poética não
cessa. O deleite é garantido.

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