Sobre o egoísmo e seus derivados

O texto abaixo é o capítulo 8 do Livro IX de Ética a Nicômano, de Aristóteles. Peguei o texto na internete, digitando o título na barra de busca. O Dr. Google foi generoso. Penso que é muito pertinente o que ele fala, pra variar um pouco... Boa leitura!

Também se discute a questão de se um homem deveria amar acima de tudo a si mesmo ou a alguma outra pessoa. São criticados aqueles que amam a si mesmos mais do que a qualquer outra coisa e dá-se-lhes o nome de ególatras, que é considerado um epíteto pejorativo; e um homem mau parece fazer tudo no seu próprio interesse, e isso tanto mais quanto pior ele for. É acusado, por exemplo, de não fazer nada espontaneamente, enquanto o homem bom age tendo em vista a honra, sacrificando os seus interesses pessoais, e isso tanto mais quanto melhor ele for. Mas os fatos estão em conflito com estes argumentos, o que aliás não é de surpreender. Com efeito, dizem os homens que deveríamos amar acima de tudo o nosso melhor amigo, e o melhor amigo de um homem é aquele que lhe deseja bem por ele mesmo, ainda que ninguém venha a ter conhecimento disso; e esses atributos são encontrados principalmente na atitude de um homem para consigo mesmo, como todos os outros atributos pelos quais é definido um amigo; porque, como dissemos127, foi a partir desta relação que todas as características da amizade se estenderam aos nossos semelhantes. E isto é confirmado pelos provérbios, como "uma só alma128", "os amigos possuem todas as coisas em comum", "amizade é igualdade" e "a caridade começa por casa", pois todas essas características são encontradas principalmente na relação de um homem para consigo mesmo. Ele próprio é o seu melhor amigo, e por isso deveria amar a si mesmo acima de tudo. É, pois, razoável indagar qual das duas opiniões seguiremos, porque ambas são plausíveis. 127 Cap. 4. (N. do T.) 128 Eurípides, Orestes, 1046. (N. do T.) Talvez convenha distinguir esses argumentos uns dos outros e determinar em que medida e a que respeito cada uma das opiniões é verdadeira. Ora, a verdade poderá tornar-se evidente se apreendermos o sentido em que cada escola usa a expressão "amigo de si mesmo". Os que a usam como termo de censura atribuem a autofilia aos que abocanham um quinhão maior de riquezas, honras e prazeres corporais, pois essas são as coisas que a maioria deseja e pelas quais se esforça como se fossem as melhores de todas; e também por esse motivo se tornam objetos de competição. E os que são cúpidos com respeito a elas satisfazem os seus apetites e, de modo geral, os seus sentimentos e o elemento irracional de sua alma. Ora, a maioria dos homens são dessa natureza, e esse é o motivo de ser usado o epíteto em tal acepção: ele recebe o seu significado do tipo predominante de autofilia, que é mau. É justo, por conseguinte, que os homens que amam a si mesmos desse modo sejam objetos de censura. E é evidente que a maioria das pessoas costumam chamar amigos de si mesmos aqueles que se dão preferência com respeito a objetos dessa espécie; porque, se um homem fizesse sempre questão de que ele mesmo, acima de todas as coisas, agisse com justiça e temperança ou de acordo com qualquer outra virtude, e em geral procurasse sempre assumir para si a conduta mais nobre, ninguém chamaria amigo de si mesmo a um tal homem e ninguém o censuraria. No entanto, ele parece ser mais amigo de si mesmo do que o outro. Pelo menos, atribui a si as coisas mais nobres e melhores, satisfaz o elemento mais valioso de sua natureza e obedece-lhe em todas as coisas. E, assim como uma cidade ou qualquer outro todo sistemático é, com toda a justiça, identificada com o seu elemento mais valioso, o mesmo sucede com o indivíduo humano; e, por conseguinte, o homem que ama esse elemento e o satisfaz é mais amigo de si mesmo que qualquer outro. Ainda mais: diz-se que um homem tem ou não tem domínio próprio conforme a razão domine ou deixe de dominar nele, o que implica que ela é o próprio homem; e as coisas que os homens fazem de acordo com um princípio racional são consideradas mais legitimamente atos seus, e atos voluntários. É evidente, pois, que esse é o próprio homem, ou que o é mais do que qualquer outra coisa, e também que o homem bom ama acima de tudo essa sua parte. Donde se segue que ele é no mais legítimo sentido da palavra um amigo de si mesmo, e de um tipo diferente daquele que é alvo de censura, tanto quanto o viver de acordo com um princípio racional difere do viver segundo os ditames da paixão, e desejar o que é nobre de desejar o que parece vantajoso. Por isso, todos os homens aprovam e louvam os que se ocupam em grau excepcional com ações nobres; e se todos ambicionassem o que é nobre e dedicassem o melhor de seus esforços à prática das mais nobres ações, todas as coisas concorreriam para o bem comum e cada um obteria para si os maiores bens, já que a virtude é o bem maior que existe. Portanto, o homem bom deve ser amigo de si mesmo (pois ele próprio lucrará com a prática de atos nobres, ao mesmo tempo que beneficiará os seus semelhantes); mas o homem mau não o é, porque, com o abandono às suas más paixões, ofende tanto a si mesmo como aos outros. Para o homem mau, o que ele faz está em conflito com o que deve fazer, enquanto o homem bom faz o que deve; porque a razão, em cada um dos que a possuem, escolhe o que é melhor para si mesma, e o homem bom obedece à razão. Do homem bom também é verdadeiro dizer que pratica muitos atos no interesse de seus amigos e de sua pátria, e, se necessário, dá a vida por eles. Com efeito, um tal homem de bom grado renuncia à riqueza, às honras e em geral aos bens que são objetos de competição, ganhando para si a nobreza, visto que prefere um breve período de intenso prazer a uma longa temporada de plácido contentamento, doze meses de vida nobre a longos anos de existência prosaica, e uma só ação grande e nobre a muitas ações triviais. Ora, os que morrem por outrem certamente alcançam esse resultado; é ele, pois, um grande prêmio que escolhem para si mesmos. Os homens bons também se desfazem de suas riquezas para que os seus amigos possam ganhar mais, pois, enquanto o amigo de um homem adquire riqueza, ele próprio alcança nobreza: é a ele, portanto, que cabe o maior bem. O mesmo se pode dizer das honras e cargos públicos: tudo isso ele sacrificará ao seu amigo, porque tais atos são nobres e louváveis nele. Com razão, pois, é um homem assim considerado bom, visto que escolhe a nobreza acima de tudo. E pode ele, inclusive, deixar a ação ao seu amigo: em certas ocasiões é mais nobre sermos a causa da ação de um amigo do que agirmos nós mesmos. Vê-se, pois, que em todos os atos que atraem louvores aos homens, o homem bom reserva para si o maior quinhão do que é nobre. E neste sentido, como já dissemos, um homem deve ser amigo de si mesmo, porém não no sentido em que a maioria o é.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Parábola

A prova da cobra

Apesar dos pesares...