Uma carta
Há coisas que acontecem ou tomam lugar na vida gente para as quais não se encontra explicação plausível. Não sei se tudo o que acontece com a gente merece explicação plausível. Nem mesmo sei se a tal explicação plausível procede em qualquer caso. Fato é que, em alguns momentos, a gente é acometido por uma reação, um sentimento, um movimento interno (Dos humores, diriam os antigos, mais antigos que eu!) que paralisa as sinapses mais simples e faz a gente pensar: como assim?! Hoje, vendo um documentário do Brasil Paralelo sobre a educação no Brasil, deparei-me com um depoimento que menciona a carta que segue abaixo. Não sei o que dizer a respeito dela. Sua contundência me cala. Copiei a al carta daqui: https://correioims.com.br/carta/foi-se-a-melhor-parte-da-minha-vida/
Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1904
Meu caro Nabuco,
Tão longe, em outro meio, chegou-lhe a notícia da minha grande desgraça, e você expressou logo a sua simpatia por um telegrama. A única palavra com que lhe agradeci[1] é a mesma que ora lhe mando, não sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me acabrunha. Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.
Não posso, meu caro amigo, responder agora à sua carta de 8 de outubro; recebi-a dias depois do falecimento de minha mulher, e você compreende que apenas posso falar deste fundo golpe.
Até outra e breve; então lhe direi o que convém ao assunto daquela carta, que, pelo afeto e sinceridade, chegou à hora dos melhores remédios. Aceite este abraço do triste amigo velho
Machado de Assis
Correspondência Machado de Assis & Joaquim Nabuco. Organização de Graça Aranha. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 2003, pp. 126-127.
[1] N.E.: “Obrigado”.



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