Conselho
“Ouça um bom conselho / que lhe dou de graça...” (Chico Buarque)
Você tem que fazer cara de desdém, quase nojo. Bem blasé!
Olha assim como quem não quer nada ou como quem que está se lixando pro mundo.
melhor ainda se der uma pitada de empáfia, arrogância, mas só uma pitada. Fica
demais, um luxo. Na hora das fotos você tem algumas opções. Uma é fazer biquinho
e olhar de sedução. Outra, abrir uma gargalhada bem sonora, pra mostrar o
recente implante de resina branca – aquela que transformou sua dentadura num
teclado de piano de quinta categoria. Ou então, mais, fácil, bote a língua de
fora, isso dá um ar erótico, quase pornográfico. isso rende. Muita gente vai te
seguir. Muita “gente” mesmo. Quanto à roupa, bem, aí complica um pouco. São muitos
teóricos da moda, muitos “especialistas” em “estética da vestimenta”. Para além
disso, você tem que um consultor, para poder dizer em que dia da semana você
pode usar tal marca, a que horas, para que tipo de situação e como deve falar,
agir, pensar e reagir. É muito complicado. essa parte eu deixo para os “doutores” em moda, essa “ciência” tão necessária,
indispensável mesmo, para quem ser feliz. Não há dúvida. Isso vale para sapatos
e acessórios. sempre se lembrando de que marca é tudo. Não interessa quão
esquisito – pra não dizer ridículo, senão patético – você fique depois de “montado”.
isso é detalhe. Vale o que “as pessoas”
vão pensar, a inveja que você instigar (você acredita mesmo nisso???).
ainda assim, arrisco um palpite: leve sempre consigo um livro que seja
badalado, publicado pelas Cia. das Letras, lógico, de autoria de alguém
absoluta e irrecorrivelmente desconhecido, mas que está “na mídia” e vai ser
convidado para aquela “festa”, aquele naquele balneário colonial metido chique,
isso, Paraty. O convite para essa “festa” (quem participa acredita que ler é
uma festa, coitados...). Esse livro, independente de qualquer coisa e de tudo o
mais é um item indispensável para a composição de sua persona descolada,
chique, elegante intelectualizada e “antenada”. Todos os particípios de que
você não deve esquecer. Ah... você não sabe o que é particípio. Isso eu explico
depois. Vamos em frente. Bom isso quanto à aparência – fundamental e
determinante. Quanto ao comportamento, é só se lembrar das dicas sobre as
fotos. Qualquer coisa, seu assessor de pose pode ajudar. Isso, você tem que ter
mesmo um assessor de pose. Quanto ao que dizer, não deixe de usar bem o “aí”
fora do lugar 0- faz um sucesso danado na mídia; as gírias dos descolados da pauliceia
(leia-se “Faria Lima” ou “Jardins”): faz “paRRRte”. Outra opção é imitar o povo
do Leblon, melhor ainda da Barra. No verão é um must. No resto do ano,
tem seu charme. Cuidado para não exagerar na neutralidade pronominal,
substantiva e adjetiva do jargão progressista. Sim, você vai ter que se cuidar.
use com moderação. Cite sempre os mesmos bordões, defenda sempre as mesmas
pautas e elogie sempre os artistas perseguidos pelo fascismo do governo
anterior. Você vai ser indicado ao oscar da popularidade com uma atitude dessa.
Elogie a universidade “pública, gratuita e de qualidade” e meta o pau em gente intolerante,
transfóbica, homofóbica, egofóbica, etcfóbica também. Penso que é isso. Se
tiver alguma coisa: consulte aquela modista com nome italiano ou então a que é
conhecida pelo diminutivo. Pode ser que ajude. Boa sorte!

Comentários
Postar um comentário