Exercício

A postagem de hoje é uma provocação, um exercício. As reticências ao final podem ser lidas como um convite para dar continuidade à história. Pensei em usar todas as expressões que andam sendo objeto da sanha obtusa e rasteira de gente ignorante e tendenciosa... Aceita quem quer.

“Quando o telefone tocou no criado mudo, Mané se assustou. Atendeu logo. Era o Negão, do sítio em Conceição do Pará. Ligava pra dizer que Nonata tinha morrido. Nonata era uma preta velha que foi babá de Mané. Depois ficou trabalhando como cuidadora da mãe dele e de duas de suas tias, as solteiras. Mané tinha um afeto enorme por ela. Todo final de semana ia para o sítio e ficava com ela. Já estava doente. Negão era seu filho. Teve um problema sério na infância e não tinha nenhum dente. Jamais comeu carne. Morria de medo de dentista e jamais procurou um para sanar a falta de dentes. Tinha um sorriso cativante. Era um homem corpulento, forte, mas dócil e atencioso. Estava chorando muito ao telefone. Mané disse que ia em seguida. Só tinha de deixar a caixa preta que estava analisando no laboratório e ia para Conceição do Pará em seguida. A coisa estava preta para o seu lado. O laudo tinha que sair logo e a caixa preta era quase um buraco negro para se entender. Mané estava apreensivo, não queria ver a coisa preta, mas era ciente de seu trabalho. No caminho do sítio lembrou-se de passagens de sua infância e chegou a sentir o gosto do bolo “nega maluca” que Nonata fazia. Lembrou-se também das aulas que dava em casa, no interior, tinha uma letra linda que deixava no quadro negro para as crianças copiarem. Voltou a pensar na caixa preta e ficou com raiva de seu supervisor, que fazia tudo para denegrir a imagem do laboratório...

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