Declaração de amor
Quando dei aulas sobre Literatura
Brasileira, sobretudo nos últimos semestres (nos cinco anos finais de minha “carreira”
– por questões meramente burocrático-administrativas – lecionei apenas
Literatura Portuguesa e Literatura Comparada), assim como, quando lecionava
outras matérias literárias, lia poemas (inclusive) em sala de aula. Isso era
considerado perda de tempo e falta de didática por alguns doutos “pares” que
faziam cara de chacota quando isso era mencionado. Sim, eu lia textos literários
em sala de aula!!! Heresia! Anátema! Fosse nos domínios do tio Sam... shame
on you!, era o que eu ouviria... Bom... Sempre procurei desmerecer as “bocas
de matildes” e continuei lendo poemas, contos, trechos de romances, etc.
em minha aulas. Numa delas, apresentei esse poema – lido primeiro, escutado depois
– para afirmar, de cara, que seus dois primeiros versos são a mais acachapante
declaração de amor de que tenho notícia. Adoro o termo “acachapante”: diz tudo,
é sonoramente forte, expressivo, vigoroso. Fiquei com o poema. procurem pela
gravação de Adriana Calcanhoto (desconheço se há outra... Caso haja, não vai
superar a da cantora gaúcha). Uživati! É bom proveito em croata...
Inverno
No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial
Há algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
Que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
Reuniu-se a terra um instante por nós dois
Pouco antes do Ocidente se assombrar
(CÍCERO, Antônio. “Inverno”, in: Guardar. Rio de Janeiro:
Record, 1996.
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