"Opiniães"...
Não sabia quem é Marcelo Duarte Lins. Procurei na internete e encontrei (entre outros) o seguinte parágrafo: “Caso Varig – A história da maior tragédia da aviação brasileira (Editora Jaguatirica, 408 páginas), do comandante Marcelo Duarte Lins, 59 anos, carioca, bacharel em Ciências Aeronáuticas pela Academia da Força Aérea Brasileira no curso de Oficiais Aviadores em 1979, retrata o Caso Varig, processo judicial que se arrasta nos corredores do Judiciário e, ao mesmo tempo, segue arrastando as vidas de ex-funcionários, demitidos e aposentados que tiveram seus ideais aprisionados, seu futuro sem um voo certo e cujas vozes ainda ecoam em um vazio de respostas.” O texto completo de onde separei o parágrafo acima encontra-se no seguinte endereço: Caso VARIG - A maior tragédia da aviação brasileira - DefesaNet. O livro dele não me interessa aqui. De fato, o que me fez partilhar esta postagem foi o texto que ele escreveu e que recebi de um amigo do Sul, o Celso Celidonio. Concordo, em gênero, número e grau com o que O Marcelo diz em seu texto. Assino embaixo. Leia o texto e tire suas conclusões. Antes que me xinguem, execrem e/ou mesmo cancelem, gostaria de dizer que eu sei que o “espírito” que move a ABL é o de acolher “notáveis”. Mas isso fica para uma outra hora. Segue o texto que me interessa partilhar.
“TROCARAM UM MACHADO POR
UMA MARRETA
Marcelo Duarte Lins
A Academia Brasileira de
Letras — aquela casa centenária que, em tese, celebra a língua e cultiva a
literatura — acaba de confirmar: virou puxadinho do PROJAC. Miriam Leitão, a
jornalista sempre pronta a indignar-se em horário nobre, agora é “imortal”. Sim,
a mesma honraria que um dia pertenceu a Machado de Assis, Rui Barbosa, Olavo
Bilac e Graça Aranha foi concedida a uma senhora cujo maior feito literário
talvez tenha sido transformar editoriais em sermões.
Nada contra dona Miriam —
ou melhor, tudo contra o que ela simboliza nesta fase terminal do teatrinho
literário nacional. A ABL, que em outros tempos discutia gramática com vinho,
hoje debate narrativas com militância. Não qualquer militância, mas aquela de
esquerda vintage, que sonha com um socialismo gourmet à base de prosecco
e hashtags.
E com todo o respeito que
o sarcasmo permite: qual é mesmo a grande obra literária de Miriam Leitão? Qual
romance memorável? Que coletânea de contos inovou? Qual revolução estética ela
trouxe à língua portuguesa? Não vale boletim partidário disfarçado de editorial de jornal ou crônica. Estamos falando de literatura —
lembram?
Os imortais do passado,
esses sim, devem estar se revirando em suas tumbas. Uns em latim, outros em
francês. Olavo Bilac, provavelmente, à procura de uma rima para “vergonha”. Rui
Barbosa, redigindo um habeas corpus contra o que chamaria de atentado semântico.
E Machado? Talvez apenas soltasse um suspiro irônico e escrevesse uma crônica
melhor que esta.
E pensar
que a Academia foi fundada com tanto zelo, por gente do calibre de Lúcio de
Mendonça, Joaquim Nabuco, Artur Azevedo… Hoje, basta ser comentarista da hora
certa e do governo certo. Daqui a pouco, teremos influencer literário ocupando
cadeira. A vaga no TikTok Acadêmico já está sendo providenciada.
A coisa desandou faz
tempo. Quando Sarney recebeu seu fardão, já ficou claro que a cadeira — antes
trono da língua — viraria poltrona para veteranos da política. Com Miriam,
virou assento fixo de redação, com vista privilegiada para Brasília.
O fardão? Virou fantasia
de festa temática: “Vá de imortal, sem precisar escrever nada.” O critério?
Visibilidade midiática, afinidade com o grupo dominante e o dom de comentar
tudo — exceto literatura. Isso, hoje, é quase um impeditivo.
A defesa de sua escolha
vem em tom emocionado: “Mas ela tem livros infantis, memórias, economia…” Sim,
livros. Mas estamos falando de literatura. Aquela arte que exige alma,
linguagem e invenção. Sejamos justos: há mais lirismo em uma lista de compras
de Drummond do que em três coletâneas da nova imortal.
O Brasil, mestre das
reinvenções tortas, conseguiu transformar a Academia em órgão homologador de
relevância político-midiática. Se amanhã convocarem Zé de Abreu ou Felipe Neto
para a próxima cadeira, ninguém se espante. A fila anda. E a gramática corre.
Machado de Assis, esse
sim imortal, talvez dissesse apenas: “Aos vencedores, as batatas.” No caso,
batatas empanadas — servidas no coquetel da próxima posse.
A ABL não morreu. Apenas
se adaptou ao seu tempo. Trocaram o Machado por uma marreta — e com ela,
demoliram o que restava de seriedade.
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