Repetição talvez
Pra variar, ando numa maré de preguiça que nem sei. Deve
ser por conta dos 70, da hipocrisia circundante, da vilania alheia ou mesmo
chatice minha mesmo. Encontrei este texto guardado e resolvi partilhar, só pra
não dizer que não estou ‘postando’ (detesto este ‘verbo’!) nada... Segue
o texto.
“Nós somos aquela geração que não vai voltar. Crescemos
com sapatos cheios de pó, joelhos raspados e coração apressado. não para olhar
para uma tela,
mas para terminar o lanche e sair correndo para a
rua – onde a única coisa importante era uma bola e alguns amigos. Nós éramos os
que voltávamos da escola a pé. falando alto ou sonhando em silêncio, com a
mente já no próximo jogo, na próxima aventura, entre um buraco na areia e um
segredo sussurrado atrás de um canto.
Um pau podia ser uma espada. Uma poça virava um mar
para conquistar. Nossos tesouros eram berlindes, cromos, barquinhos de papel. E
o céu, nosso único limite.
Não tínhamos backups, apenas memórias na
mente e nos rolos fotográficos. As fotos eram tocadas, cheiradas, guardadas em
gavetas – junto a cartas escritas à mão, postais dos avós, e desenhos coloridos
que os pais guardavam como joias.
Nós chamávamos de ‘mãe’ a quem curava nossas febres
e ‘pai’ que nos ensinou a andar de bicicleta. Não era preciso mais.
À noite, sob os cobertores, conversamos baixinho
com o irmão na cama ao lado, rindo por besteira, com medo que algum adulto
ouvisse e desligue esse pequeno mundo de cumplicidade.
Essa geração está indo, pouco a pouco, como uma
fotografia que perde a cor,
mas ninguém quer jogar fora. Nós nos afastamos
silenciosamente, levando uma mala invisível: o eco do riso na rua, o cheiro de
pão acabado de fazer, corridas sem sentido e aquela liberdade que eu não
conhecia notificações.
Nós éramos crianças quando ainda se podia ser. E
talvez essa seja a nossa maior fortuna.”
(José Vergara)
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