(In)Certezas...
Estou aposentado desde 2018. E feliz com esta situação: meu particular dolce far niente, num sentido muito, mas muito particular e pessoal. Pois bem. Li o texto que segue, enviado por alguém que penso não conhecer. Já faz um tempinho que o guardei e vou partilhar pois tenho inveja do autor. Em outras palavras, durante os quinze últimos anos de minha carrière, eu disse a mesma coisa. Infelizmente, parece que só piorou...
“Um dos mais
graves problemas das Humanidades é assumir a inferioridade que lhe imputam em
relação às ciências exatas e da natureza. Isso se dá nem sempre de modo direto.
A forma preferencial é importação do modelo de funcionamento e avaliação das
ciências duras. O pior exemplo são os chamados congressos científicos, que não
são nada, na maior parte das vezes, do que turismo e sociabilidade. Basta ver a
defesa que se faz da relevância dos coffee breaks ou almoços durante esses
eventos. Isso se dá porque é ridículo pressupor que se possam apresentar ‘resultados’
em 15 minutos. Tenho estudado bastante as obras de Machado. O que eu poderia
apresentar como conclusão das minhas leituras e escritas sobre ‘Esaú e Jacó’ ou
‘D. Casmurro’ em 15 minutos? E mesmo que o fizesse, isso interessaria a alguém?
Não, claro. O que importa é ‘como’ e ‘por que’ eu poderia fazer tal ou tal
afirmação. Da mesma cegueira e subserviência procede a valorização excessiva do
artigo em “periódico científico”, em detrimento das formas tradicionalmente
mais relevantes e consequentes de publicação na nossa área. Porque muitas
vezes, é um livro de ‘divulgação’ o que mais tem consequências sociais e ‘científicas’
na bibliografia de um autor. O tema é vasto e não cabe aqui. Mas eu creio que
ao privilegiar de modo radical publicações em revistas ‘científicas’ que
ninguém lê, deixando de investir esse tempo e energia em atividades de ‘divulgação’
e em textos em linguagem acessível ao público culto em geral, as Humanidades
deixam de dialogar com a sociedade e de valorizar, portanto, uma das
características que as tornam indispensáveis numa instituição universitária: a
sua aptidão de intervir e de moldar o futuro, por meio do debate amplo, da ação
instrutiva e da crítica das crenças que informam (ou deformam) o presente”
(Paulo Franchetti).
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