Da leitura...
Mexendo e remexendo em meus arquivos, do tempo em que ainda lecionava, encontrei um texto que fala sobre leitura. Não tenho, neste arquivo, sequer uma pista de quem seja o autor e de onde tirei o texto. Por isso, vai entre aspas. No entanto, as ideias nele contidas me parecem instigantes e quis partilhar. Se eu tiver paciência, continuarei em outra postagem. O texto tem vinte páginas...
"A atividade incontornável dos críticos, dos teóricos, ou dos
historiadores literários, é a da leitura. Não obrigatoriamente a primeira, mas
incontornável: “não obrigatoriamente a primeira” porque nos parece possível
formular hipóteses críticas, teóricas ou históricas, sem ser necessária uma
leitura prévia do corpus a considerar, pois, de início, há que
considerar a ideia de que o que fica de outras aquisições é a possibilidade de
deduzir hipóteses a partir de postulados gerais. Geralmente, as questões surgem
antes da colheita de dados.
A palavra leitura não é inócua. A sua etimologia
familiariza-a com o verbo colher e com o ato posterior à colheita que é o de
juntar os frutos no cesto. O verbo legere, que deu ler em
português, significava por isso “reunir, juntar, colher, apanhar (flores,
frutos, etc.)”, no que não deixa de se conjugar a pelo menos um dos sentidos do
parente grego logos, que é o de “contar”, na dupla acepção de “somar” e
de “narrar”. No entanto, uma palavra não se define só pela sua etimologia, tal
como um filho não se explica só pelo pai. A rede conceitual abrangida por toda
a família da palavra que dá origem a leitura contribui para formar uma
ideia completa das potencialidades do étimo e do campo semântico envolvido pelo
uso desse termo. Não deixa de ser procedente, no caso, que a leitura
seja prima, não importa agora o grau, mas prima de eleger e coligir,
de lógos e de lei.
Pegando no termo que mais interfere com o nosso campo de
trabalho, é oportuno lembrar que logos significava, já para Heráclito, “um
princípio subjacente e organizador do universo, relacionado com o significado
comum de logos como proporção”, e demonstrando que a Grécia estava
preparada para receber o Evangelho segundo São João, com a doutrina do verbo
seminal. Na verdade, o ato da leitura visa reunir, de uma forma organizada,
pelo menos alguns dos elementos do universo textual, elegendo uma proporção,
uma “regra de ouro”, que os relacione produtivamente. Para o fazer, a leitura
precisa daquilo a que a hermenêutica chama de maneira geral “interpretar”,
confundindo-se muitas vezes o termo com o de “compreender”, ou o de “explicar”.
A interpretação não pressupõe, se respeitarmos a História da palavra,
apenas dar um sentido à totalidade das partes, mas dar-lhe “o verdadeiro
sentido”, sendo na frase tão importante o adjetivo quanto o artigo definido,
que sugere uma segunda adjetivação (a de “único”).
A procura do “verdadeiro” e único sentido prende-se com o fato
de a palavra significar originalmente “traduzir de uma língua para outra”, ou
seja, ser intérprete, o que implicava a traição necessária de optar por um
sentido apenas. O que interpreta era, em latim, antes de tradutor, o “agente
entre duas partes, intermediário, medianeiro, negociador”. O intérprete
literário traduz, por consequência, para uma linguagem não poética, para uma “língua
artificial” ou “natural”, ou para um sistema de comunicação (U. Eco), o que é
característico do que Lotman chamava de “sistema de simulação secundário”; e fá
isso baseado numa negociação para estabelecer um consenso, como o pressuposta
por Eco no conceito de interpretante. No entanto, o seu trabalho não se
distingue do dos exegetas da Bíblia, pois ambos traduzem um significado
oculto ou latente. O mesmo sucede com os intérpretes dos filósofos mais
estudados nas Universidades. A tarefa do intérprete não deriva, portanto, do
que há de específico na atividade literária, mas de ser ele o tradutor de um
sistema de simulação secundária para um sistema “artificial” e autorizado.
O verbo interpretar tem, no Dicionário Prático
Ilustrado (ed. 1976), um significado quase igual aos anteriores: “explicar
o sentido mais ou menos claro de: interpretar uma lei” . Tal significado
especializou-se, no século XIX, para o de anotar; no entanto, Fonseca e Roquete
nessa mesma altura distinguiam entre as anotações e as interpretações com base
na imagem da clarificação: estas procuravam um sentido geral único, aquelas
aclarar os significados ou explicá-los parcialmente (“assim que a annotação
instrue, e a interpretação cinge-se a apresentar as razões pró e
contra”). As anotações, neste sentido próprio, alicerçam por sua vez as explicações,
“que se estendem a facilitar a intelligencia das cousas ao vulgo dos leitores”.
A definição contrastiva de explicação por aqueles
autores é quase a mesma que, noutros dicionários, encontramos para interpretação.
A diferença está em “facilitar a intelligencia das cousas”, expressão que, para
designar o trabalho do intérprete, se veria substituída pela fixação de um sentido
único, em torno do qual examinam os intérpretes “as razões pró e contra”. As
explicações, contrariamente ao que o sentido comum faria supor, dão a perceber
ao leitor as entrelinhas que for descobrindo o exegeta, e fazem-no sem a
pretensão de fechar o sentido com a rolha do rato do rei da Rússia.
Não é por acaso que preferimos, no período anterior, usar a
palavra (exegeta) em vez de “hermeneuta” ou “intérprete”. Exegeta vem de um
verbo grego que significava explicar, e esse verbo tem como étimo outro
que exibia dois sentidos: crer, e olhar como. Isso dá-lhe uma
riqueza e uma propriedade maiores. Em parte, a explicação leva a olhar como
num dos usos da expressão: ver como funciona a obra de arte literária, uma ou
várias. No outro dos usos da expressão (o mais comum), ela é sinônimo de analogia,
imagem ou metáfora: dar a ver uma coisa através de uma segunda. A
essência do conhecimento – e, portanto, do “ver como funciona” – é imitativa,
lembra R. Kearney em A Poética Do Possível, e vinha sendo dito já desde
Aristóteles, quando na Poética ele diz que o homem aprende imitando.
Conhecer é ver como, ver uma coisa como outra, a partir de outra. A
formação das imagens exposta pela neurobiologia nos últimos anos confirma essa
ideia, e muito particularmente no que diz respeito aos “sistemas de simulação
secundária”, que se fundamentam nas imagens estimuladas por evocação, tanto
quanto se servem de “uma língua natural como material”.
A observação, que para Karl Popper é o fundamento empírico
de uma ciência, consiste na experimentada reconstrução figurativa do objeto
observado. A leitura explicativa, tal como a concebemos, é uma observação feita
sobre o texto (o objeto observado) visto como, no duplo sentido de como
funciona e visto em comparação com outros tipos de discurso ou arte. Essa
leitura constitui, não só a componente experimental dos estudos literários
críticos e históricos, como também a tarefa principal dos teóricos e, por isso,
da leitura teórica. Se a leitura inicial colige os elementos e os anota,
ela forma a nossa primeira imagem total do texto, o seu primeiro fantasma no
sentido em que Malrieu usa a palavra; ela fixa os limites da nossa primeira compreensão,
sobre a qual organizamos ou reunimos os elementos e as anotações. Por sua vez a
explicação abre, para os que não estão familiarizados com os problemas da
composição poética, algumas das várias perspectivas que permitem perceber
melhor o funcionamento de cada passagem do texto. Fá-lo a partir da imagem
total que resulta das anotações, mas não esgota o que a partir delas se pode
referir.
A palavra explicação, vista pelo prisma filológico, é
por isso preferível à palavra interpretação. Porque explicar se
forma a partir do prefixo ex (prefixo de negação, ou significando o
movimento de dentro para fora) e do verbo latino plico, “dobrar,
enroscar, enrolar (um manuscrito)”, sendo plícito o enrolado e explícito
o desdobrado.
Comummente conota-se explicar com a imagem de um
texto fechado, que visa dar um sentido único, definitivo, à leitura. Ou seja,
usa-se explicar quando se devia dizer interpretar e vice-versa.
Com reconhecido rigor filológico, Fonseca e Roquete situam claramente esta
diferença na passagem que citámos atrás. A explicação desenrola o manuscrito,
ela propõe-se abrir possibilidades, não fica presa de uma leitura única.
A palavra tem, portanto, o significado oposto ao que se vulgarizou, em vez de
fechamento ela designa desenvolvimento e abertura de perspectivas."
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