(Re)leitura (?)


Li (Reli? Já não sei...) um livro do Carlos de Oliveira, autor português, chamado Casa na duna. Tenho quase absoluta certeza de que foi releitura. Identifiquei logo um procedimento narrativo sui generis sobre o qual também tenho quase absoluta certeza de já ter comentado. Trata-se de uma narrativa que não se desenvolve a partir do encadeamento de episódios relatados por um narrador que parece a tudo organizar, como eminência parda da ficção que se desdobra sob os olhos de um leitor não tão entusiasmado assim. Se não me engano, no comentário anterior – se é que de fato o fiz, quando da pressuposta primeira leitura do romance – eu dizia que o livro conta uma história que não acontece. A voz narrativa, responsável pelo relato que se lê vai apresentando personagens e situações, criando um enredo que se enovela numa mudança sutil e subliminar da temporalidade. Os índices de marcação temporal praticamente inexistem, apesar da vinculação da obra desse autor ao neorrealismo português. Li, por aí, algumas linhas que me soaram interessantes de se considerar: “Embora não seja referenciado no romance, o tempo, naquele “mundo de realidade enganosamente suspensa (...), anterior à Revolução Industrial dois séculos depois dela”, pode ser facilmente localizado nas primeiras décadas do século XX, através das referências à construção de estradas e a uma incipiente industrialização, demonstrando uma forte resistência ao progresso. Essa atemporalidade pode indicar uma realidade preservada das transformações sociais e, conseqüentemente, a de um país que historicamente vivia um tempo de isolamento e preservava modelos ancestrais de uma realidade sócio-econômica, definida pelo historiador Fernando Rosas como “um atraso econômico semifeudal.” (https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16081/16081_5.PDF) Mantive o texto como o encontrei na rede. Não sei dizer se foi escrito depois do famigerado acordo... Voltando à vaca fria, Casa na duna responde ao que preconiza o estuário neorrealista na/da Literatura Portuguesa, muito menos agudo, eu diria, que um Alves Redol ou um Manuel da Fonseca. Não faço referência a Levantado do chão, do José Saramago, por não gostar dele (Oh contradição... acabei de fazê-la!). Pois bem. Para além desta marca personalíssima no/do romance de Carlos de Oliveira, há outra, a meu ver, mais instigante: o vocabulário. Para quem gosta de descobrir as vicissitudes culturais uma nação a partir e através de sua língua, este livro é um achado. O primeiro capítulo, que emoldura o cenário narrativo, em que vai transcorrer a ascensão e a glória de uma tradicional família portuguesa, é pura poesia. Em que pese a possível ignorância vocabular de um leitor que se ponha a ler este romance, a beleza da linguagem de Carlos de Oliveira, neste romance, sobretudo em seu capítulo inicial, enseja uma lição de estética literária a não deixar lacunas... Vale o convite!
PS: este texto saiu de repente, por pura preguiça de ter que enfrentar narizes torcidos e vociferações mefistofáusticas (este último adjetivo não de minha autoria...), se fosse comentar o exagero de hoje de manhã no Rio de Janeiro...



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