Tres fronteiras
Então, de repente, do nada, o professor, ou a professora –
ai essa chatice de ter que esquecer que a riqueza da Língua Portuguesa permite
o uso de uma única forma para os dois gêneros vocabulares... chatice! Não vou
dar asas à cobra aqui!– vira-se para os alunos e pergunta na lata, apontando
para a mesa onde está um livro: o que está sobre a mesa? E todos respondem: um
livro. Ele pergunta de novo: de quem é o livro? E a resposta: da professora.
Então, ele muda o livro de lugar e continua com uma série de perguntas sobre o
livro e sua posição. Um dos alunos pergunta para que aquilo tudo. E o professor,
pachorrentamente, responde que aquilo tem a ver com a ideia de posição. Ou
seja, não importa onde o livro esteja, como ele esteja sobre a mesa. O fato de
ele estar sobre a mesa continua o mesmo. Em outras palavras a sua posição não
interfere no fato de estar sobre a mesa. Então outro aluno pergunta, mas o que
isso tem a ver com a “matéria”? O professor, mais pachorrentamente, responde
que está fazendo um aquecimento para explicar a importância da ordem dos
elementos na frase e algumas de suas consequências. Então, de promptu,
ele escreve na lousa – ui, que antigo! Sim, sou desse tempo! – dois versos: “Ouviram,
do Ipiranga, as margens plácidas / do povo heroico, o brado retumbante”. E
lascou a pergunta: qual o sujeito desta oração? Mas isso é o hino nacional,
disse alguém. E uma gritaria se alastrou. Sim, disse o professor (ainda
pachorrentamente), mas é uma oração. Uma oração em forma de verso. Então. Qual
o sujeito. Silêncio sepulcral. Um dos alunos mais ousados e debochados disse
que não havia sujeito. O professor perguntou por quê. O aluno disse que não
havia nada antes do verbo. A professora, com toda a sua pachorra, comentou:
prestem atenção no verbo. O que tem ele, perguntaram. Ele está no plural,
alguém respondeu. Pois é, disse o pachorrento professor. Isso é um dado
importante aqui. Se o verbo está no plural, o sujeito tem que estar no plural,
não é? Silêncio sepulcral. Daí a professora pergunta o que foi que “ouviram”.
Uma das alunas mais aplicadas respondeu: “o brado retumbante”. E o professor
atalhou: logo, essa expressão não pode ser o sujeito da oração. De quem é o
brado, arriscou o professor. Ora, disse, outra das alunas aplicadas, “povo heroico”,
pois margens não falam. O que é Ipiranga, pergunta a professora. Silêncio
sepulcral. O mais engraçadinho murmura: “o posto de gasolina”. Risada geral. Balbúrdia.
O professor, já não tão pachorrentamente assim, responde, não, é o nome de um
riacho, o local onde Dom Pedro I declarou a Independência do Brasil. Então, insiste,
qual é o sujeito. O nerd da turma responde: “As margens do Ipiranga”. Como você
chegou a essa conclusão, pergunta a professora: ora. disse o aluno. Se o verbo
está no plural, o sujeito também tem que estar no plural. Na oração que está na
lousa a única coisa que está no plural é “as margens plácidas”. Logo, este é o
sujeito da oração. Ele está deslocado. Alguma vaia, risinhos, quase balbúrdia.
O professor assentiu e continuou seu discurso sobre as possibilidades de
deslocamento do sujeito numa oração.
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“Saudade dela, aquela mulher imensa. Sempre sentada a fazer crochê. Sempre falando baixo e com um sorriso rasgado, quando não crispava a expressão por conta de alguma indiscrição, ou por condenar alguma palavra mais grosseira. Uma santidade encarnada. Saudade dele, quando, pela manhã, acordava coçando a barriga, solta na frente da blusa desabotoada do pijama. Mastigando a própria língua e lambendo as gengivas, livre das dentaduras ainda no copo d’água, na cabeceira da cama imensa. A calma encarnada. Tudo grande. Família grande de gente imensa, larga. Tanto que um dos filhos foi para o Japão lutar sumô...” (Não sei o porquê de escrever isso aqui. Encontrei anotado numa agenda velha, sem nenhuma referência.)
“Saudade dela, aquela mulher imensa. Sempre sentada a fazer crochê. Sempre falando baixo e com um sorriso rasgado, quando não crispava a expressão por conta de alguma indiscrição, ou por condenar alguma palavra mais grosseira. Uma santidade encarnada. Saudade dele, quando, pela manhã, acordava coçando a barriga, solta na frente da blusa desabotoada do pijama. Mastigando a própria língua e lambendo as gengivas, livre das dentaduras ainda no copo d’água, na cabeceira da cama imensa. A calma encarnada. Tudo grande. Família grande de gente imensa, larga. Tanto que um dos filhos foi para o Japão lutar sumô...” (Não sei o porquê de escrever isso aqui. Encontrei anotado numa agenda velha, sem nenhuma referência.)
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Então é assim: um sujeito afirma que vem sendo preso desde
2002. Os delitos são variados assim como as penas por ele sofridas. Seu
depoimento é calmo. Ao final, ele afirma que por ter uma filha de dez anos e por
ter sido trabalhador antes da sequência de prisões, recebeu da “justiça” quase
duzentos mil reais. Não há comentário. Não se sabe se foi indenização. Não se tem
notícia se o valor é o somatório da “ajuda” que veio recebendo enquanto encarcerado.
De qualquer das maneiras. Isso é inexplicável. E eu ainda tive que aguentar
comentário safado, depois que partilhei o vídeo, dizendo que eu deveria
procurar a fidedignidade das fontes para não espalhar notícia falsa, dado que,
na opinião de quem comentou minha postagem, a situação é plenamente
compreensível, viável e, até, justa! Eu posso?


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