Crônica (?)

Outro dia, fui almoçar no MADERO, do Boulevard shopping, em Belo Horizonte. A decoração, padronizada, não causa mais impressão. A atenção da recepcionista foi insuficiente. Eu estava sozinho. Não havia mais ninguém por perto quando cheguei. Ela teve a capacidade de lascar a pergunta: “Mesa para quantas pessoas?” Pode?! Muito bem que ela se mostrou bem treinada. Decorou a pergunta certa, no tom adequado. mas um pouco de jogo de cintura e atenção ao que está ocorrendo à volta não custa nada. Mas deixa pra lá. Estava frio. Chegando à mesa, tirei casaco, foulard, chapéu. Mantive a máscara. Maldição! Ainda não estava a comer ou beber. Logo... Logo fui atendido. O rapaz, muito atencioso anotou o meu pedido. Não sabia da quantidade de salada. Pedi uma “picanha premium”, acompanhada de penne na manteiga e uma salada do chef. Para minha surpresa a picanha – Merece o epíteto (essa é uma das qualidades do MADERO. Pena que, ao que parece, por conta das eventualidades pandêmicas, no tocante à economia, o grupo está em maus lençóis. Parece até que vai fechar. Pena. Muita pena. – Para minha surpresa, a picanha vinha acompanhada de uma pequena salada – em quantidade insuficiente para merecer o nome. A porção de penne era adequada. O prato com a salada do chef era mesmo grande. Logo vi que não era necessário o penne, mas... Já estava na mesa. Aprendi com meus pais – coisa rara de acontecer com muitas crianças hoje em dia – que o que se põe no prato deve ser comido. Que não está certo deixar comida no prato. Com o passar dos anos, comecei a perceber que muita gente, mundo afora, pensa que deixar comida no prato é sinal de finesse, etiqueta, educação refinada. Eu creio que isso seja, no mínimo, desumano, falta de consciência. Tanta gente a passar fome mundo afora e essa “gente” fazendo pose, deixando comida no prato. Todo mundo sabe qual o destino dos “restos”. Tem até prefeito que proíbe doação de marmitas para moradores de rua! (Não vou usar a expressão “cidadãos em situação de rua”, pois a considero esdrúxula, para não dizer estúpida. Parece um despropósito. Todo mundo sabe que sou um chato!) Então... Quando vi a quantidade de salada, deu vontade de rir. Mas comecei a comer. Lenta e educadamente. Do meu lado esquerdo um bando de “aborrescentes”, comendo hambúrgueres (claro!). Falando alto. Todos com o celular na mão. E há quem chame isso de interação ou conexão! Vai entender... Do meu lado direito, sentaram-se duas mulheres e uma criança. Tive a impressão de que uma dela era a mãe da pirralha típica de restaurante. Falando alto, bagunçando a mesa. Jogando coisas no chão. Correndo pelos espaços entre as mesas. E as duas donas falando ao celular, quando não elogiavam s diabruras do pequeno animalzinho. Quando meu pedido foi colocado sobre a mesa, os ocupantes das duas mesas olharam para mim e se entreolharam. Enquanto eu comia, isso se repetiu. umas tantas vezes. Cheguei a pensar em perguntar se eles estavam com vontade de pedir para experimentar a carne ou a salada, e estavam com vergonha. Ensaiei um sorriso interno. Continuei olhando para o nada. Comi tudo. Aprendi a lição de casa. Pode ser que me considerem uma pessoa mal-educada ou, como se diz popularmente, um “pobre”. Daqueles que quando come se lambuza, de acordo com o adagiário popular. Fiquei quieto. Os da esquerda saíram, em bando, alvoroçados, como soe acontecer com essa gente. As duas do lado direito saíram um pouco antes de mim e deixaram a mesa como se esta tivesse sido atingida por um tsunami, daqueles que só acontecem no Japão ou na China, de acordo com alguns vídeos no youtube... Uma bagunça. Dei graças a Deus por não ser da minha natureza o tal desejo de paternidade. E fico imaginando o tanto que eu ia infernizar a vida da mulher que se casasse comigo e a vida dos filhos não ia ser menos difícil. Deus sabe o que faz. AH... ia me esquecendo: a comida estava ótima. O preço, um pouco salgado. Mas eu trabalhei e me aposentei para isso: para não ter que dar satisfação dessas coisas a ninguém. Nem mesmo a mim...



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