"Opiniães"
Sobre um certo “editorial” publicado na rede (Editorial semanal – Quem deterá os criminosos fardados? - A Nova Democracia), antes de mais, cumpre dizer que: quando alguém quer, pode dizer o que quiser, conscientizando-se da responsabilidade pelo que escreve e assumindo, implicitamente, responsabilidade por qualquer consequência oriunda do que escreveu. Isso, me parece, é básico. Quase enfadonho repetir, mas não custa: o tempo presente tem mostrado que certo projeto de analfabetização funcional implantado há algumas décadas tem surtido efeito. E que efeito! Vamos lá!
Já virou
rotina, no Brasil, o pronunciamento de militares da ativa sobre questões
políticas.[1]
Após o discurso de Pazuello, o Carniceiro[2],
em comício[3] de
Bolsonaro no Rio, rasgando o que determinam de modo explícito as próprias leis[4],
segundo as quais a existência e missão das Forças Armadas é defender seu
cumprimento (inclusive o Regulamento do Exército), os próceres de farda
dobraram a aposta: no último dia 7, em nota oficial, o Ministro da Defesa e os
Comandantes das três Forças Armadas se pronunciaram repudiando declarações de
um certo senador na CPI[5].
No dia seguinte, o Comandante da Aeronáutica, numa linguagem muito comum entre
os matadores da Baixada Fluminense[6],
reiterou a nota golpista[7],
dizendo que “homem armado não ameaça”. Só faltou puxar o revólver da cintura e
dizer ao repórter que o entrevistava: “Teje preso!”.[8]
São todos eles, portanto, apenas por isso,
baderneiros e criminosos confessos[9], a
violar o que determina a própria disciplina militar (burguesa) a que estão
obrigados e dizem defender. Desta vez, não foi apenas o general desacreditado[10],
mas toda a cúpula militar, que se pronunciou em público. Se isto é o que vem à
tona, imaginem o nível de agitação e efervescência política que grassa, agora
mesmo, dentro dos quartéis[11] –
cenário que se agrava se nele incluímos o quadro crítico das polícias, civis e
militares, que todos os dias demonstram seu “patriotismo” nas vielas e becos
escuros, agredindo e assassinando prisioneiros inermes[12].
Ocorre que os crimes daqueles veteranos de
coquetéis e cursos[13],
entremeados por incursões[14]
temporárias em favelas cariocas ou haitianas, não se encerram no desrespeito
aos próprios regulamentos. Para não retrocedermos à história (os crimes de
tortura e assassinato praticados nos porões entre 1964 e 1985[15],
e aqueles de esparramada ladroagem tramados nos palácios em Brasília no mesmo
período), basta lembrarmos o que veio à tona nos últimos 12 meses: tráfico de
drogas em avião presidencial[16],
compra superfaturada de insumos para produzir cloroquina[17],
aquisições estratosféricas de cerveja e picanha[18],
tramoias[19]
escandalosas no Ministério da Saúde (envolvendo aquisição de testes e de
vacinas[20]),
a gestão genocida[21]
da pandemia (liderada por Pazuello), a omissão no socorro à mortandade em
Manaus[22]
(que só não foi maior devido ao envio de oxigênio, via caminhões, pela
Venezuela[23]), a
recusa[24]
em abrir os leitos ociosos dos hospitais militares (financiados pelo Tesouro)
quando brasileiros e brasileiras morriam de Covid-19 sem conseguir acessar os
hospitais públicos.
É esta a folha de serviços prestados, ou a
folha corrida, dos senhores oficiais-generais ao povo brasileiro[25].
Eles são a infantaria do nosso atraso secular[26];
desde sempre, a quinta-coluna da nacionalidade[27].
Como se vê, são crimes continuados contra a pátria e contra o povo, alimentados
pela cumplicidade servil dos “três poderes” acovardados[28].
Engana-se quem pensa[29]
que estas forças estão “fechadas” com Bolsonaro, assim como engana-se quem
pensa que elas não podem ser, por ele, arrastadas como medida extrema para
salvaguardar a unidade e hierarquia internas. Tudo depende da movimentação das
distintas forças, dinâmica muito fluida em cima da qual[30]
agem, como condicionantes, os acontecimentos objetivos sobre os quais nem os
generais e nem Bolsonaro podem controlar[31].
O Alto Comando das Forças Armadas, como
instituição, sabe que Bolsonaro é um instante, ao passo que aquele primeiro
perdurará até que a revolução vindoura[32] o
ponha na guilhotina (se não a de madeira, a guilhotina política, isto é, a
perda de poder[33]). Neste
contexto, a ocorrência ou não de eleições próximas é tema secundário[34] –
agitação e ameaças da extrema-direita para barganhar, fazer ordem unida de suas
hordas e também desviar a atenção do público quando vão no auge as denúncias[35]
contra Bolsonaro. A tendência principal é que as haverá, pois que até o Iraque
e o Afeganistão ocupados por centenas de milhares de tropas invasoras
ofereceram uma lista de candidatos títeres aos eleitores amordaçados[36],
tão logo alterado o status quo. Os generais não precisam necessariamente
cancelá-las para garantir o rumo da marcha política (caso apenas extremo!), mas
podem e, pelo desenvolvimento das tendências eleitorais, vão conduzir e
influenciar diretamente em seus resultados por processos outros.[37]
Os últimos 30 anos provam que as eleições periódicas não são empecilho para o
alijamento das massas do processo político, senão que, em situações normais de
temperatura e pressão, são mesmo a forma mais eficaz de fazê-lo.[38] A
chamada tutela militar, embora tenha se agravado extraordinariamente e tomado
forma de golpe militar de Estado contrarrevolucionário desde 2017, na essência
existiu sempre, e tende a se reforçar, com ou sem Bolsonaro, e talvez até mais
sem ele.[39]
Se uma coisa provam os recentes episódios é
que não está nas urnas a solução para a tragédia brasileira.[40]
Esta radica na luta das massas do campo, principalmente, e também da cidade,
mobilizadas em defesa dos seus interesses mais sentidos[41],
e passo a passo engajadas na luta pelo Poder. Contra esta muralha, nada poderão
os criminosos fardados.[42]
[1] Se bem me lembro, quando estudei
História Geral, História do Brasil e História de Minas Gerais (Sim! A gente
estudava as três categorias como disciplinas autônomas, mas em diálogo didático
apresentado, desenvolvido e comentado pelos professores de História – não sei
dizer se à época já havia uma Licenciatura em História, nos termos em que
conhecemos hoje.), militares SEMPRE deram palpite em questões políticas no
Brasil. Em alguns casos, tomaram a frente. Pode ser ingenuidade de minha parte,
mas isso já não é mais novidade e, acredito, ainda com certa ingenuidade, que
não é também expressão do MAL.
[2] Usando o citado
dicionário, carniceiro é um adjetivo que identifica o que ou aquele
que que se alimenta de carne, carnívoro. É um nome adjetivo e substantivo
masculino que significa: que ou o que faz grande(s) matança(s) ou possui
instintos sanguinários. Em sentido figurado, que ou o que se delicia com
espetáculos de violência e de sangue. No âmbito da rubrica “anatomia zoológica”, diz-se de ou um dos dentes, geralmente o último pré-molar superior e o
primeiro molar inferior dos mamíferos da ordem dos carnívoros, adaptados para
cortar carne. Como nome substantivo masculino, identifica aquele que tem o
ofício de abater reses, magarefe; o que esquarteja carne para vendê-la a
retalho, açougueiro. Por analogia, como regionalismo
brasileiro de uso informal, identifica cirurgião que
opera mal ou de maneira descuidada. No mesmo âmbito, em relação ao futebol, é o
jogador violento.
[3] Ibidem, na
mesma data: nome substantivo
masculino que identifica reunião pública de cidadãos, geralmente a céu aberto,
em que se fazem protestos e/ou críticas de caráter social ou político, ou em
que um candidato a cargo eletivo expõe seus projetos e ideias. Em Roma,
assembleia do povo, com poderes para resolver certas questões de ordem
legislativa e eleitoral, e que dispunha de prerrogativas religiosas e
judiciárias. Em sentido figurado, de uso informal é o discurso político. Por exemplo: tudo o que diz transforma num comício.
[4]
Quer me parecer que, nos dias que correm, há dois “poderes” fazendo isso de
maneira constante, leviana, vil, nojenta, tendenciosa, criminosa – paro por
aqui, dado que o paradigma é por demais extenso – e tudo continua como dantes
no quartel de abrantes...
[5]
Chamar o talzinho de “senador” só por força do voto. De outra forma, não passa
de mais um vil canalha que se locupleta do erário público sem o menor puder.
[6]
Mesmo correndo o risco de parecer conivente, penso que antes apenas usar certa
linguagem, em lugar de agir de igual modo, como no caso dos cangaceiros que se
dizem “eleitos pelo povo” e fazem de tudo para, literalmente, cagar e andar
para o mesmo povo.
[7] Desta feita,
sirvo-me de apenas duas acepções dicionarizadas do verbete correlato, golpe: substantivo
masculino que identifica estratagema, ardil, trama. Em sentido
figurado, ação ou manobra desleal; rombo, desfalque.
[8]
Com a devida vênia e respeitada a liturgia do cargo, quem tem usado e abusado
desse “comando” (inclusive mantendo o horroroso erro de pronúncia!) é o que se
diz “presidente” dessa coisa convencionalmente chamada de cpi (as três
letrinhas podem identificar qualquer coisa, exceto o que a origem da sigla, de
fato, representa!). O fulano, inclusive, o faz sem nenhum amparo legal, mas
isso é só um detalhe, pois não?! Atenção!!! Contém ironia...
[9]
Por falar em cpi, “baderneiros e criminosos” são, com exceções, os que compõem
a tal “coisa” identificada pelas três letrinhas.
[10] “Desacreditado”
por quem, cara pálida? Por quê? Como assim?
[11]
Nos gabinetes do congresso e nos puteiros federais ocorre também a mesma – se não
maior – efervescência, financiada pelo famigerado “dinheiro público!”
[12]
Prisioneiros? Como assim? Eles continuam – e agora com aval da chamada “corte
suprema” caminhando de um lado a outro, ostentando falsa riqueza e armas,
muitas armas, sem a menor chance de serem detidos – a fazer o que sempre
fizerem... Portanto, de inermes, “eles” não têm nada, nadinha de nada, neres de
pitibiriba.
[13] Não
são, os “coquetéis e cursos”
privilégio de ninguém, judiciário e legislativo continuam torrando muito dinheiro
com isso, também!
[14] É
bom lembrar, mesmo me repetindo, que essas “incursões” agora têm respaldo
jurídico “superior” para serem proibidas. Não foi um suposto juiz “do supremo”
que as proibiu, em nome “da lei e da ordem”?
[15] Celso
Daniel, Paulo César Farias, testemunhas de Juiz de Fora, juízas cariocas, entre
outros, muitos outros, foram igualmente assassinados e não em “porões”.
[16]
Quer dizer que um sujeito entra numa casa qualquer, à noite, enquanto os
moradores da casa dormem, assassina a família inteira, deixando vivo apenas o dono
da casa e desaparece; e no dia seguinte o dono da casa é preso porque é responsável
pela morte da família? (Detalhe: o dono da casa gritou com um filho porque ele
não queria lavar o próprio prato depois de usá-lo, ao jantar...)
[17]
Quer dizer que malária, lúpus e artrite reumatoide já prescindem desse
medicamento?
[18]
Vinhos francês premiados, lagosta, camarão e outras iguarias não contam mais
nesta “estratosfera”? Só porque foram “os homens de preto” os seus compradores?
[19] Creio, piamente, ter
havido equívoco no uso desse substantivo. Se não, cumpre observar que este
substantivo feminino significa maquinação secreta com o
objetivo de iludir alguém ou prejudicar algo ou alguém; ardil, artifício,
trampolinice. Curiosidade, na rubrica “teatro’,
o mesmo substantivo identifica maquinismo com que são feitas mudanças
de cena, aparecimentos e desaparecimentos súbitos etc.
[20]
Uai, não era pra comprar?
[21] Vamos lá. Para não
deixar dúvida quanto ao apropriado uso de termos, é bom esclarecer que genocida
é relativo a genocídio; é adjetivo de dois gêneros e
substantivo de dois gêneros, identificando que ou quem perpetra ou ordena um
genocídio. Por sua vez, genocídio é substantivo masculino e significa extermínio
“deliberado, parcial ou total”, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou
religioso. (as aspas são por minha conta. Mania minha de chamar a atenção para
coisas que muita gente considera reles, banal, inútil...). Por extensão de sentido, é destruição
de populações ou povos. Em suma, “aniquilamento de grupos humanos, o qual, sem
chegar ao assassínio em massa, inclui outras formas de extermínio, como a
prevenção de nascimentos, o sequestro sistemático de crianças dentro de um
determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida etc.” (Uma
vez mais, minha mania se manifestando... concretamente!).
[22] É
preciso esclarecer que socorro, na “prática” (Lembram do que disse acima sobra
as aspas... pois é...!), numa “república federativa” é competência e obrigação
do mandante do Estado ou do Município, pois é efeito de “execução” (Oh!)
concreta, local.
[23]
Para ser preciso, é irrecorrível esclarecer que a doação foi feita por uma
empresa brasileira, White Martins, sediada em território venezuelano. Então...)
[24]
Terá sido assim mesmo, na lata? Há controvérsias...
[25]
Jamais pensei que iria dizer o que vou dizer: ainda bem que a censura não
permite a publicação da folha corrida “do outro lado”. Já imaginou o vexame?
Pra não dizer vergonha?
[26]
Quer dizer que Macunaíma estava errado quando dizia que a saúva e a saúde, os
males do Brasil são? É preciso enfatizar que a ironia é a figura de linguagem
que sustenta e alimenta o sentido da oração proferida por uma personagem de
Mario de Andrade. Um pouco difícil de entender, eu sei, mas vamos lá, não custa
tentar... Como disse certo filósofo, mais ou menos literalmente, há mais coisas
entre o céu e a terra... Ah... cansei!
[27]
Quinta? Como assim? Dá pra explicar?
[28]
Que eu saiba, a covardia reside na limitação d qualquer outra manifestação que
não seja aquela que agrade a quem se locupleta, pelo dinheiro ou pela cor da
roupa, com o erário público, em detrimento desse mesmo público...
[29]
De fato, não existe, per se, possibilidade de ser “absoluta” tal posição, seja
ela filosófica, ideológica ou político-partidária. Tudo é absolutamente
relativo. Ops...
[30]
Nunca me informaram que “dinâmica” fosse um local, um móvel, um espaço concreto,
sobre o qual alguma coisa pudesse ser feita...
[31]
No contexto em que, supostamente, esse “editorial” se articula, esta é uma
ideia razoável e consistente.
[32]
Essa tal “revolução vindoura” é a que vai trazer o “país do futuro”?
[33]
Deus... que metáfora pobre...
[34]
Como sempre foi nos estados unidos de brunzundanga, pois não? O que interessa
mesmo é o famoso “quanto é que eu levo”?
[35]
Enquanto as “provas concretas” não aparecerem, não passa disso... sempre com a
retroalimentação das famigeradas “narrativas”, de um e de outro lado!
[36] A
mordaça está no início de tudo. Ela atende pelo nome de obrigatoriedade do
voto. Engana-se quem acredita que, no Brasil, o voto é livre. É só deixar de
votar pra ver. Livre é a escolha do candidato, mas o voto em si é obrigatório.
[37]
Generais influenciando eleições? Ah, tá... Pelo visto. só os capa preta é que
fazem isso...
[38] E
nota-se uma sanha doentia e perversa pata manter as coisas como estão. Basta
ver o fundão da indecência...
[39]
Quem lê “isso”, se não se esforçar um pouquinho, mas um pouquinho só, pode até
chegar a ter medo...
[40]
Ah, não está mesmo. Ou melhor, está, na sua ausência. Adoraria ver todos os
candidatos sem nenhum voto. Nenhum. Mas não vou ver isso acontecer. Nas veias
da patuleia brasílica corre água podre e não sangue...
[41]
Que interesses são esses? E por que mais “sentidos”? Que expressão vazia...
[42]
Não se esqueça, há criminosos sem farda... e como há!
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