Personagem nova
Zuleica Sueli chegou logo à delegacia. Trazia uma caixa colorida com as iniciais OP. Dentro da caixa havia 36 cartões postais. Dois cachos de cabelo, umas flores secas. Fitas desbotadas e uma caneca antiga, daquelas que precisavam de tinteiro. Sua irmã, a camareira do hotel, não sabia daquela caixa. Ficou intrigada quando Zuleica comentou sobre ela. O delegado fez algumas perguntas. Estava calmo e atento às respostas. Zuleica Sueli parecia um pouco incomodada. Não estava à vontade no meio de três homens. A irmão advertira. Cada um dos investigadores fazia seu trabalho. O delegado assim o providenciou. Insistiu que Zuleica Sueli ficasse tranquila. Fez mais algumas perguntas e dispensou a moça. Os rapazes continuavam seu trabalho e o delegado começou a mexer na caixa. As cartas estavam amarradas com um barbante grosseiro. Não desfez o pacote, ainda que sua curiosidade assim o quisesse. Chamou o escrivão e fez o relatório da entrevista com Zuleica Sueli. Guardou os papeis na pasta do inquérito e mandou guardar a caixa no depósito de evidências, no porão. O rapaz da limpeza observou tudo. Calado e tímido, como sempre foi, observava enquanto fazia seu trabalho. Lembrou-se do dia em que foi chamado pelo delegado para depor. Como trabalhava no hotel, apenas três dias na semana, conseguiu que o delegado o contratasse para a limpeza nos outros dias. Um dinheiro a mais não faria mal. O delegado o chamou e perguntou se ele conhecia Zuleica Sueli. Disse que a conhecia da casa da camareira, vizinha à sua. Ela vinha visitar a irmã de vez em quando. O delegado perguntou se ele sabia se Zuleica Sueli conhecia o morto. Não sabia. Não fazia ideia. Nunca a vira no hotel, nem em outro lugar. Apenas a vira na casa da camareira. Pediu licença para terminar seu serviço e saiu. O delegado fez um telefonema, pegou o casaco e saiu. A delegacia ficou calma e silenciosa. Zuleica Sueli, chegando em casa, telefonou para a irmã e contou o que se passou na delegacia. Disse que tinha olhado dentro da caixa e lido as cartas. A camareira não gostou e repreendeu a irmã. Que não devia ter feito aquilo. Que estava errado, mas ficou curiosa sobre o conteúdo das cartas. Conversaram durante muito tempo. Já era tarde quando Zuleica Sueli foi dormir. Os cabelos presos por uma touca de meia. O corpanzil branco esparramado na cama. O arfar de quem fuma muito. Na rua, o silêncio de sempre. Zuleica Sueli fez suas orações, cobriu-se só com o lençol, fazia muito calor. Custou a dormir. Uma sirene atravessou a noite como de hábito. Zuleica Sueli não acordou.
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