Instante
Escrevi o texto abaixo ao som do primeiro movimento da Sonata ao luar, de Beethoven. Veio assim, de uma vez. Será ideia para um início de romance? Quem sabe, um esboço de peça teatral. Não sei. escrevi de uma vez, sem pensar. Quase fiz a mesma coisa de novo, ao ouvir um Noturno de Chopin, o mais popular, o número 2. Desisti. Fiquei com o impacto do primeiro gesto...
A cena tem que ser totalmente coreografada. Não sei se é
possível, mas tem de ser. O clima se divide entre tenso e melancólico. A luz
não é muita, nem pouca. O cenário tem poucos elementos. Uma personagem está
recostada numa poltrona e observa a outra que faz as malas. Tudo coreografado,
cada movimento, cada inflexão de olhar. A câmera passeia entre as personagens e
os elementos de cena, coreografado também o seu movimento. O clima muda para um
tom acima. Desespero, quase. As duas personagens por uma vez, e apenas uma, se
olham. Talvez no terceiro terço da sonata. Olhar também coreografado. A
personagem continua arrumando as roupas e objetos na mala. Acaba e se volta
para a porta. Lentamente, coreografadamente, vai andando. Abre a porta. Sai. A
outra personagem não se move. A câmera dá um close em seu olhar. Entre
melancólico e desesperado. Tenso é o clima. A câmera repousa sobre a janela que
mostra a outra personagem entrando um carro. A personagem, que fica se levanta.
Vai até a porta e leva a mão à maçaneta. Desiste de abri-la. Tudo coreografado.
Olha à sua volta. Algumas peças de roupa jogadas pelo chão. Um gato passa lentamente.
A personagem se senta. Suspira. Fecha os olhos e a música termina com a câmera
em close num livro aberto, sobre o qual há uma caneta. Fim.

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