Fragmento
Mexendo no meu computador – já velho, que não reconhece certos arquivos, que me impede de abrir outros tantos e que vai ficando cada vez mais lento – encontrei este fragmento. Já não sei se fui eu mesmo quem o escreveu. Já não sei se copiei de algum lugar. Para evitar dores de cabeça, vai entre aspas. Se, por acaso, não fui eu o autor, e se, por acaso, o autor o reconhecer... faça—me saber.
“Existe,
creio que atavicamente, um traço distintivo no ser humano: a sede de ser o
primeiro. Tenho dúvidas sobre ser “sede” o termo correto. Talvez desejo soasse
melhor ou faria mais sentido ou daria mais consistência à ideia exposta. Tanto
faz. Aqui, qualquer uma das formas vai dizer a que veio. Esta sede permeia
quase todas as atitudes do ser humano. Há um grupo, num certo lugar que, num
determinado – pelo próprio grupo – momento, resolveu inventar uma coisa. Não há
necessidade de se dizer que coisa é essa. Fato é que a coisa foi inventada
pelos elementos que compunham o grupo, num sentido mais estrito. Na verdade, o
grupo era mais numeroso. A invenção, no entanto, era peculiaridade do pequeno
conjunto. A coisa foi inventada e divulgada, tomou forma e corpo. Alçou voo e
alcançou outros rincões mundo a fora. Sua genuinidade pode ser questionada, por
óbvio. Faz tempo que o conceito de originalidade vem perdendo força, eficácia,
eficiência, relevância... A invenção persiste. Assim, pensar no primeiro, no
original, no início é exercício filosófico de monta. Ser da primeira turma que
cursou um programa de disciplinas diferente por conta de uma reforma de ensino.
Ser da primeira turma da graduação em Língua Portuguesa que, antes, só oferecia
Licenciaturas duplas. Ir pela primeira vez a um determinado local e, no
primeiro quilômetro deste local, sofrer uma acidente. Ser o primeiro
classificado em primeiro lugar num concurso público. Ser o primeiro... este
exercício pode encher de orgulho e empáfia um sujeito que não esteja atento ao
que se passa à sua volta. Dizer “sou o primeiro” é motivo de reprovação ou
vergonha? Depende. O contrário também depende. Tudo é relativo, sobretudo no
discurso. O contexto pode modificar a simplicidade de uma assertiva, tornando-a
profundamente ofensiva, e até criminal, quando é o caso. E há muitos casos... O
que importa, no entanto, é saber que a sensação de ser o primeiro não é ruim.
Nada ruim. Há que se procurar certa sabedoria intrínseca, implícita e intuitiva,
para não se deixar engambelar pelo “canto de sereia” da vaidade que leva o
sujeito à ruína. Nem sempre, mas leva. Nem sempre é simples.”

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