Desesperança
Em tempos de Natal, ou, mais acertadamente, de Advento, os dois textos que seguem tangenciam o tema. Numa tentativa de contextualizar a minha desesperança, o meu ceticismo, minha tristeza, minha vergonha e minha raiva, uso os dois para favorecer a possibilidade de tentar manter o espírito elevado, numa terra de ninguém e que se transformou isso a que chamam de país... Espero que consigam tirar proveito dos textos, porque de minhas ideias e da situação em que estamos, não há como...
Texto do Cardeal José Tolentino
Mendonça
“Sobre a amizade
O modo como uma grande amizade
começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se
efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos
explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade. Na maior
parte das vezes, quando reconhecemos alguém como amigo, isso quer dizer que já
nos ligava um património de amizade, que nos dias anteriores, nos meses
anteriores, como escreveu Maurice Blanchot, ‘éramos amigos e não sabíamos’.
Aquilo de que uma amizade vive
também dá que pensar. É impressionante constatar como ela acende em nós gratas
marcas tão profundas com uma desconcertante simplicidade de meios: um encontro
dos olhares (mas que sentimos como uma saudação trocada entre as nossas almas),
uma qualidade de escuta, o compartilhar mais breve ou demorado de uma mesa ou
de uma conversa, um compromisso comum num projeto, uma qualquer ingénua
alegria… A linguagem da amizade é discreta e ténue. E, ao mesmo tempo, é
inesquecível e impressiva.”
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Rezas
Antigas Portuguesas
Não
tenho notícias sobre a autoria)
Quando pedires alguma coisa a Dezembro, pede que
te traga presentes que não se vendem em lojas: um ‘gosto muito de ti’, um ‘obrigada
por existires’, um ‘estou aqui para ti, sempre’.
Quando pedires alguma coisa a Dezembro, pede que
te traga de presente abraços apertados, gargalhadas altas, colo de quem mais
amas, mãos dadas o ano inteiro, ombros que te seguram, corações onde podes
morar sem prazo de validade.
Quando pedires alguma coisa a Dezembro, pede que
te traga de presente olhos que brilham por ti e para ti, palavras que te
protegem e cuidam como sol em dias frios, os pequenos nadas que valem tudo na
vida, o essencial que ocupa, sem pesar, o lado esquerdo do peito, e o fermento
da alegria que faz a vida valer a pena.
Quando pedires alguma coisa a Dezembro, pede que
te ensine a viver de peito aberto e a acreditar - sem mas - que há uma luz ao
fundo do túnel para cada escuridão que tiveres de enfrentar.
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