Tristeza
Estou triste. Muito triste. O país em que vivo passa por uma série de situações criadas por um descalabro moral, espiritual e material. A desfaçatez e a arrogância têm-se tornado ordem do dia para demonstração de conhecimento, poder e autoridade. Ledo engano. Nada disso é como parece ser. Estou triste porque vejo manifestações de pessoas a quem quero muito e a quem quero pouco, compactuando com o referido descalabro. Uma decepção. Como é que é possível negar FATOS? Por mais que eu não goste de quem os aponta? Não deixam de ser fatos. Pensando assim, decidi partilhar dois textos que falam de morte. Na tentativa, vai expressa minha impressão de que, talvez, a morte seja uma situação mais desejável do que a emporcalhada realidade que nos é disponibilizada. Infelizmente...
“Se eu morrer antes
de você, faça-me um favor.
Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por
Ele haver me levado.
Se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir chorar, não se preocupe.
Se tiver vontade de rir, ria.
Se alguns amigos contarem algum fato a meu
respeito, ouça e acrescente sua versão.
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.
Se me criticarem demais, defenda-me.
Se me quiserem fazer um santo, só porque morri,
mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me
pintam.
Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu
talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e
amigo.
Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo,
chame a atenção deles.
Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com
Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil
a você, lá onde estiver.
E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre
mim, diga apenas uma frase:
'- Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais
perto de Deus!'
Aí, então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não
faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar.
E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha
nova tarefa no céu.
Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na
direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar
para Ele.
E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí,
sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos
preparou para Ele.
Você acredita nessas coisas?
Sim? Então ore para que nós dois vivamos como quem
sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais
perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.
Eu não vou estranhar o céu. Sabe por quê? Porque
ser seu amigo já é um pedaço dele!
(Pe. Zezinho)
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Como
é por dentro outra pessoa
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
1934
(Poesias
Inéditas [1930-1935]. Fernando Pessoa. [Nota prévia de
Jorge Nemésio]. Lisboa: Ática, 1955.
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