De um filme...
Para além da Literatura, filmes são outro assunto que me encanta e fascina. Não sou exatamente um cinéfilo, mas gostava de ir a “cinemas”. Hoje, isso não existe mais. Há salas de projeção em centros de compra, o que é bem, mas bem diferente mesmo. Já perdi a vontade e, atualmente, vivendo no litoral, numa cidade em que ainda sequer se sonha em ter um centro de compras, que dirá um cinema... é impossível. No entanto, graças à tecnologia avançada e sempre em desenvolvimento, é possível ver filmes na televisão, no computador e até no celular para quem tem pachorra suficiente para tanto... O texto de hoje é a literal reprodução de outro de autoria alheia: Rafael Lima ((8) Facebook) – o link, apesar de estranho funciona, pelo menos, funcionou na minha tentativa! O rapaz é ex-aluno de um ex-aluno meu, o Gerson Roani, hoje professor titular de Literatura Portuguesa em Viçosa. amigo dileto. Rafael comenta o filme que está em todas as bocas de matildes: Ainda estou aqui. Não vi o filme. Não vou ver o filme. No entanto, creio ainda ter o direito de corporificar ideias que me vêm quando embarco na maré de comentários – entre eles, alguns estapafúrdios, como soe acontecer – que pululam por aí. Gosto da atriz principal, apenas como comediante. Vi, com ela e a mãe, uma peça em Santa Maria-RS, nos idos de 90 do século passado, uma peça dirigida por um tal de Geral Thomas – com quem a dona foi casada –, então enfant terrible da “cena dramatúrgica” de bruzundanga – The flash and crash days. É preciso dizer mais? Depois, vi um filme dirigido por Walter Salles – Terra estrangeira. A atriz, competente, como comediante, não me atraiu nem um pouco então. Hoje, à continuação, segue não me chamando a atenção. O texto do Rafael é brilhante. Direto, contundente, sincero. Agradou-me imenso. Republico-o com a autorização do autor sem mexer em, sequer, uma linha. Leiam-no:
“Se há
um traço característico que resume a ideologia como pretenso recurso de
conhecimento universal é o de que, fechada em si mesma, ela tem de,
necessariamente, ignorar as contradições da realidade, reduzindo à rés do chão,
num discurso fechado e linear, toda a complexidade das relações entre os entes.
Dessa forma, como esforço de abstração cujo
fundamento teórico está deslocado da experiência real e imediata, ela vale tão
somente como simulacro de interpretação da realidade, que engana e confunde.
A distância abissal entre a euforia da caviar
gauche e a indiferença do grande público em relação à premiação de Fernanda
Torres em “Ainda estou aqui” (2024) é só mais um episódio da tragicomédia que é
a bolha de auto lisonja da esquerda nacional.
O hiato entre a fixação monolítica da esquerda
com a ditadura e o que pensa o povo é o que distingue quem enxerga o mundo como
ideia, e quem acredita no que veem os próprios olhos.
O esforço já quase secular da militância de
superdimensionar os excessos do regime militar não condiz em quase nada com a
percepção popular dos acima de 50 anos.
Abaixo disso, cabe dizer, a opinião interessa
pouco. É assunto que exige menos “estudo” e mais, digamos, “entrevista”.
Os exageros e brutalidades foram todos
registrados em tempo real. Não temos um “arquivo de Moscou” para chamar de
nosso. Também não teremos os “julgamentos-espetáculo”.
Está tudo aí. Correu tudo à luz do dia. E o
que escoou para os “porões” em 20 anos é menos do que o que acontece numa única
favela do RJ enquanto essas mal traçadas são lidas.
As vergonhas militares foram estampadas em
papel jornal, timbrado e sulfite. Constam nas hemerotecas, bibliotecas e nos
autos. Nos altíssimos.
Por isso o desencanto. O sujeito respira
fundo, e diz “é, teve uns excessos, umas grossas sacanagens, mas todos os
indenizados já estão ricos.
Aliás, a República nasce de um golpe, né, o
fenômeno Getúlio Vargas nasce de um assassinato e em sua ditadura, houve lá
também umas queimas de arquivo.
Ano passado mataram uns 50mil, o filho do meu
amigo do banco está numa cadeira de rodas por causa de um celular, e em 2007
roubaram meu carro. Mas ninguém liga, então vida que segue”.
Por outro lado, há ainda a maioria da
população afastada dos grandes centros para quem os militares eram apenas
figuras empombadas, ora proferindo disparates em coletivas, ora encarnando o
exemplo de cidadão em atos cívicos.
Isso tudo pela tevê. Isso, para quem tinha
tevê.
Causa espécie que a claque que tomou de
assaltado a sala de comando da educação e da inteligência nacionais, muito
ciosa de sua consciência social, seja incapaz de fazer um exercício de
sociologia de ensino fundamental e notar que boa parte do país até meados dos
anos 90 era uma espécie de cenário de Roque Santeiro ou de romance de
Graciliano Ramos.
Era um microcosmo ordinário, provinciano, com
aspirações modestas e cujas angústias não chegavam a ultrapassar os limites de
sua própria cidade.
Veja-se como é comum que as gerações passadas
saibam o nome dos colegas do primário, do padeiro, do borracheiro, do
sapateiro, do médico, do barbeiro, da telefonista, da costureira de sua região.
Se um soldado passasse na rua, é provável que
lhes pedisse um cigarro.
Cenário bem distinto da zona urbana, naquele
tempo ainda mais tímida e limitada ao eixo RJ-SP, em que a Editora Civilização
Brasileira, o Largo São Francisco, a Faculdade Nacional de Direito e tutti
quanti ditavam o tom da conversação nas redações, nas cátedras e nos botecos,
fazendo ferver os corações e mentes para a guerra cultural, ao passo que o
grande público dançava ao som da jovem-guarda.
Não mudou muito. O interior, as cidadelas, os
distritos e vilas continuam limitados, ora reverberando um iberismo
inconsciente já sem origens, ora francamente matuto, cru e materialista. Mas
sempre provinciano, apesar do celular, da Internet e da conurbação.
É como no poema de Drummond:
Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.
Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar. Eu vi a lagoa.
Habituado aos limites da sua aldeia, a
imensidão e a complexidade das cidades são para o homem do interior um mundo
estranho, difícil de desvendar e até mesmo assustador.
Continuamos uma grande roça com ilhas de
concreto e alguma sofisticação burguesa, onde a vaidade esquerdista do tapete
vermelho bancado por banqueiro tem pouco ou nenhum valor.
É como se todos já tivessem assistido sem nem
saber do que se trata.
Mas é significativo que, passados 40 anos do
fim do regime militar, a bolha rica da cultura engajada tenha congelado no
tempo, reacionária como não poderia deixar de ser, pois tratar do Brasil daí
para diante, seria tratar do projeto de destruição que impuseram ao país.
Agora, o beautiful people,
em sua alienação comunitária, renova o ânimo para mais 50 anos de pedantismo
quixotesco, enquanto o povão cravejado de balas e polvilhado em cocaína, vai
afundando ao som de “Nóis Vai Descer”.”
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