Mais um retorno
Voltando a falar do que eu mais gosto: Literatura. Estou relendo dois livros fundamentais para qualquer leitor: O pequeno príncipe e Dom Quixote. Os dois fazem parte do acervo do Clube de Literatura Clássica de que sou assinante. O primeiro veio como brinde da publicação de Terra dos homens, do mesmo Antoine de Saint-Exupéry. O segundo, nova edição a partir da tradução de Aquilino Ribeiro. Joias preciosíssimas! As releituras têm revelado, uma, surpresa, outra, confirmação. O pequeno príncipe tem me surpreendido, sobretudo por seu início. A passagem em que o aviado conhece o príncipe e, numa conversa bastante reveladora vai trocando primeiras impressões. É quando os desenhos aparecem e é aí que, para mim, reside a surpresa. Quando li o livro pela primeira vez, confesso, estava embalado pela “onda” editorial de então. (Tenho 69 anos incompletos, logo, é possível imaginar o que era isso quando eu tinha meus 11 ou 12!). A sequência de diálogos acerca do desenho, nesta releitura abriu-me todo um horizonte de expectativas para o livro. Há ali, penso agora, o desenvolvimento de princípios filosóficos sobre a existência, a realidade e o sentido dos símbolos que chega bem perto de Kant, Sartre (e todo o time de existencialistas, Freud e, acrescentaria, Wittgenstein. Não vou desenvolver as teses de cada um desses. Meu propósito, aqui, é provocar quem me ler. Sempre foi. O fruto de minha leitura, agora, é perceber as possibilidades de ilações desse tipo. Claro que posso estar enganado, mas a impressão prevalece. De outro lado, o livro de Cervantes é a confirmação das impressões que ficaram de duas leituras anteriores. A primeira, fragmentos, trechos. A segunda, completa. A ironia, a desfaçatez, o humor e a sagacidade do escritor espanhol continuam a espantar e admirar. Nada se compara à leveza jocosa com que o narrador vai apresentado as presepadas que o cavaleiro andante apronta e as enrascadas em que envolve seu fiel escudeiro. Diferentemente de Grande sertão: veredas e Os lusíadas, dois cartapácios de similar volume, Dom Quixote diverte e ensina, informa e descreve, narra e deslinda o espírito humano localizado no tempo e no espaço sem deixar de se projetar num infinito referencial que o transforma num clássico. Os outros dois cartapácios, como já disse antes, são de uma chatice imensurável, verdadeiros muros de dificuldade de leitura. No entanto, ao adentrar o palácio de beleza que os textos constroem, toda dificuldade se desfaz e o prazer, então, é igualmente imensurável.
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