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No quarto e último capítulo do conto “Civilização”, o narrador criado por Eça de Queiroz diz o seguinte:
“O pobre Jacinto, esbarrondado pelo desastre, sem
resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a civilização, caíra
pesadamente sobre o poial de uma janela, e dali olhava os montes. E eu, a quem
aqueles ares serranos e o cantar da pegureira sabiam bem, terminei por descer à
cozinha, conduzido pelo cocheiro, através de escadas e becos, onde a escuridão
vinha menos do crepúsculo do que de densas teias de aranha. (...)
Voltando acima, com estas consolantes notícias de ceia e
cama, encontrei ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da
doce paz crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sobre vale e
monte. No alto já tremeluzia uma estrela, a Vésper diamantina, que é tudo o que
neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca
considerara bem aquela estrela — nem assistira a este majestoso e doce
adormecer das coisas. Esse enegrecimento de montes e arvoredos, casais claros
fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o
cochichar das águas entre as relvas baixas — eram para ele como iniciações. Eu
estava em frente, no outro poial. E senti-o suspirar como um homem que enfim
descansa. Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás com o doce aviso de
que estava na mesa a ceiazinha. (...).”
Trata-se do início do processo de “mudança”
pelo qual vai passar a personagem Jacinto. Fato é que em livro posterior, A
cidade e as serras, o mesmo Eça vai retomar esta história sem conseguir
findá-la. O que me interessa aqui, entretanto, é a “mudança” que se anuncia no
trecho destacado. Lembrei-me dela ao ler outro texto escrito pela juíza
substituta da 6ª Vara Criminal de Londrina-PR, Isabele Papafanurakis Ferreira
Noronha (Até onde eu sei, ela não defendeu tese de doutoramento, logo, não é “Dra.”!),
escreveu um texto que merece ser compartilhado:
“Que
sua rejeição por ele não seja maior que sua rejeição pela corrupção. Que sua
rejeição por ele não seja maior que sua rejeição de ver o país governado de
dentro da prisão pelos comandos de um candidato condenado em duplo grau de
jurisdição, assim como ocorre com os líderes das facções criminosas já tão
conhecidas. Que a sua rejeição por ele não seja maior que os ensinamentos
que você recebeu de seus pais sobre não subtrair aquilo que é dos outros. Que
sua rejeição por ele não seja maior que os princípios de educação, moral e
cívica que você aprendeu quando criança nos bancos das escolas, na época em que
escola ensinava o que, realmente, era papel da escola. Que sua rejeição
por ele não seja maior do que sua indignação com a inversão de valores
existentes em nossa sociedade atual. Que sua rejeição por ele não seja
maior do que seu medo de viver o que já está vivendo a população dos países
“amigos deles”, tais como, Venezuela, Bolívia e Cuba. Que sua rejeição por
ele não seja maior que sua indignação com cada escândalo de corrupção e
desonestidade revelados na lava a jato. Que sua rejeição por ele não seja
maior do que seu pânico de viver numa sociedade tão insegura, onde pais de
família são mortos diariamente e audiências de custódias são criadas para
soltar aqueles que deveriam pagar por seus crimes. Que sua rejeição por
ele não o leve ao grave erro de demonizar a polícia e santificar bandido. Que
sua rejeição por ele não seja maior que sua defesa pelo fortalecimento da
família, como estrutura básica da sociedade. Que sua rejeição por ele não
seja maior do que sua repulsa pelo mal que as drogas têm causado em nossas
famílias. Que sua rejeição por ele não seja maior que sua esperança de ter um
país melhor para viver. Que sua rejeição por ele não tire sua capacidade
crítica de apurar tudo que é tendencioso na mídia. Enfim, que sua rejeição
por ele não o deixe cego a ponto de não enxergar que, neste momento, o Brasil
está numa UTI e seu voto deve ser ÚTIL para salvá-lo. Não brinque com isso, não
se iluda com a maquiagem dos discursos bonitos.”
Alguma
sinapse provocou meu desejo de partilhar estes dois textos. Outra consequência,
talvez, da mesma sinapse foi a vontade de deixar, para quem quer que leia estes
textos, o espaço livro para as próprias associações. Opto tibi bonam
lectionem!
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