Dualidades
Acabo de ler, numa postagem de um blogue português em que estou inscrito, a seguinte “chamada”: Como começar a ler Murakami. Por alguns segundos fiquei na dúvida: caio na gargalhada ou irrito-me. Escolha nada difícil... Por um lado, pode parecer petulância, por outro, estupidez. Entre os dois, meu coração balança. Como é que se chegou a pensar na possibilidade (esdrúxula) de se arvorar na empáfia de saber como iniciar a leitura de um livro. Pra fim de conversa (que mal começou!) eu mesmo respondo: abrindo o livro e lendo! Punto i basta. Esse desvio de rota me traz a dois poemas que aí seguem:
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma
parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma
parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma
parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma
parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma
parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir
uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte
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Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?
O primeiro é do Ferreira Gullar, o segundo, de Leandro Gomes de Barros.
Ambos, a meu ver tocam num mesmo ponto: a existência, o saber-se “ser”:
questionamento sobre a própria humanidade, ainda que em diapasões harmonicamente
diferenciados. Dá o que pensar e, de certa forma, os dois poemas ilustram a “chamada”
anunciada no início desta minha postagem. Ambos são lindos. Agora é ler e se
deleitar... O poeta maranhense comentou, em entrevista dada, que num dia
qualquer, caminhando pela rua, foi parado por algumas pessoas que perguntaram
se ele era quem ele era. Na entrevista, o poeta se disse perplexo a se
questionar sobre quem ele era exatamente. Disse que atravessava um momento
difícil, complicado e estressante, no dia em que foi abordado. Isso o fez
pensar se ele era o poeta desejado por quem o abordou ou se ele era ele mesmo,
um indivíduo cartorial como outro qualquer... Na dualidade da existência de um
só sujeito, a voz poética conclama o leitor para a mesma reflexão. Ou estarei
enganado? Já no caso do paraibano, também numa entrevista, ele é perguntado
sobre se acredita em Deus. Respondendo afirmativamente que sim, cita o poema
que aqui trago. Bela maneira de professar a fé e de apresentar uma questão
profunda, abissal, cuja resposta leva toda uma vida para ser elaborada e não é
encontrada. Espero que quem chegar a ler esta postagem chegue também a gostar
dela.
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