Protesto
Já usei o poema que uso hoje nesta postagem. É poema “de cepa”. Deu-me uma vontade imensa de usar esta expressão que, não sei dizer, já deve (ou não!) ter sido usada por alguém de fama, ou também por alguém absolutamente anônimo como eu. Ando enjoado com as notícias, com os acontecimentos, com o fruto do que foi plantado anos atrás. A natureza é sábia e não mede esforços, não seleciona seu público. Ela “É”! O poema diz muito e neste exato momento em qu um quadro tenebroso (re)começa a se desenhar no horizonte – e o vamos aguentar até outro ou mais adiante... vai saber), no mesmo momento em que “estudantes” reclamam o “direito” de receber um salário mínimo para estudar com a desculpa mais que esfarrapada que este é o seu trabalho, o que, na cabeça deles, e só lá, é suficiente para justificar seu “direito” à grave. Que tontice. Isso me faz triste, cansado, desesperançado. Mas a vida continua, como a natureza. E ainda bem que temos poesia ... “de cepa”... para desanuviar os negrumes que já se apresentam e nos aguardam...
Cântio negro
José Régio
“Vem por aqui” - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!
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