Aproximações
O primeiro volume da coleção de obras de Graciliano Ramos –
de que me falta apenas um volume – Vidas secas – apresenta Caetés,
publicado em 1933. Em interessante ensaio de apresentação da obra do escritor
alagoana. Wilson Martins faz observações que vou retomar aqui. O volume que me
falta foi emprestado para uma prima, em priscas eras. Ela jamais me devolveu.
Eu jamais consegui encontrar este volume. O da coleção. Capa dura. Com ensaio
inicial. A marca peculiar desta coleção, da Martins Editora, é, exatamente, esta:
o ensaio inicial. Pois nele, no volume que acabo de reler, com prazer
imensurável, Wilson Martins apresenta uma leitura interessantíssima que serve
de guia inaugural de leitura, para aquele que vai se aventurar no universo
ficcional de Graciliano Ramos. Claro está que não vou defender uma tese para
debater com as ideias do crítico citado. Não estou a escrever um tratado, um
artigo ou uma recensão. Registro apenas algumas linhas que nascem da releitura –
repito, incomensuravelmente prazerosa – de Caetés. “Ateu! Não é verdade.
Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo
— uma estrela no céu, algumas mulheres na terra...”. “Adrião, arrastando a
perna, tinha-se recolhido ao quarto, queixando-se de uma forte dor de cabeça.
Fui colocar a xícara na bandeja. E dispunha-me a sair, porque sentia
acanhamento e não encontrava assunto para conversar. Luísa quis mostrar-me uma
passagem no livro que lia. Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no
cachaço. Ela ergueu-se, indignada: — O senhor é doido? Que ousadia é essa?
Eu... Não pôde continuar. Dos olhos, que deitavam faíscas, saltaram lágrimas.
Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo: — Perdoe, minha senhora. Foi
uma doidice. — É bom que se vá embora, gemeu Luísa com o lenço no rosto. — Foi
uma tentação, balbuciei sufocado, agarrando o chapéu. Se a senhora soubesse...
Três anos nisto! O que tenho sofrido por sua causa... Não volto aqui. Adeus.”.
Os dois trechos aqui copiados do romance, entre aspas, correspondem,
respectivamente, ao fim e ao começo dele. Inverto propositadamente. Wilson
Martins comenta, em seu ensaio, este romance de Graciliano Ramos pode ser aproximado
– os termos não são exatamente este, mas vá lá... – de outro congênere,
lusitano: A ilustre casa de Ramires. Diz o crítico que, apesar de um tanto
desgostoso com o resultado de seu trabalho, Graciliano Ramos não poderia ser
criticado negativamente por seu primeiro romance pois, dentre outras qualidades
e peculiaridades, apresentava essa: a realização de um plano narrativo com
igual densidade, quando comparado ao romance de Eça de Queirós. Isso é fato
incontestável. Gonçalo Ramires, na península, se impõe o projeto de reescrever
a história do torreão que marca concreta e arquitetonicamente o caráter
fundante da presença e importância de sua família em terras portuguesas, ao
mesmo tempo que, no intento de concretizar esse projeto se vê enovelado pelo
próprio processo. Em outras palavras, o romance de Eça pode ser lido na chave
da metalinguagem. Ou ainda, o romance do autor português acaba por descrever o
processo de construção ficcional de uma narrativa, enquanto recupera – ainda que
não completamente – o caráter historiográfico desta mesma narrativa. Igual
exercício, de acordo com o crítico, é praticado por Graciliano Ramos, com
sucesso, acrescentaria eu.
No entanto, gosto de meter o meu bedelho. Para além
desta característica, o romance do alagoano também reverbera outros dois
romances do mesmo autor português: O primo Basílio e O crime do Pe.
Amaro. Guardadas as devidas proporções, um tema comum aos três se
apresenta: o adultério, cometido, desejado, esboçado, que seja. No caso do
padre, adultério é uma palavra um tanto deslocada, mas pode-se levar em
consideração seu casamento com a igreja. Assim estaria sustentada a hipótese
implícita em meus pitacos. Luíza, Amélia e Luísa são as mulheres que se
envolvem em situação delicada. No caso da personagem nordestina, Luísa, a cena
inicial aqui copiada, já coloca os elementos para a trama do adultério que se
desenvolve simultaneamente à da escrita do livros sobre os indígenas caetés,
intento de João Valério. A presença de Adrião, o marido, dá o toque da galhofa
e da malícia, a ser retomado ao longo do romance e que serve de relé para a
sequência final envolvendo esta personagem. É isso. Wilson Martins está certo.
Quem sou eu para dizer o contrário. Para terminar, acrescento ousadamente uma
outra observação. A frase final do romance – igualmente copiada aqui – revela o
traço debochado de Eça, na perspectiva ficcional de Graciliano. Leiam lá em
cima a passagem e vejam se não é mesmo possível aproximá-la, no tom, a
comentários semelhantes que abrem e fecham outro texto de Eça de Queirós: “José
Matias”, um conto. Vão lá. Leiam. Depois me digam...



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