Diferenças
Duas mulheres, um bando de
rapazes, um tempo incomensurável e a verborragia de um narrador que nem narra,
nem se identifica como tal. Bobagem? Não creio. Mário de Andrade, no início do século
20, advogou o direito à experimentação estética – creio que era esta a
expressão literal usada pelo polígrafo paulista – para a consolidação de um
processo de busca de construção da brasilidade a ser representada, contada, narrada
pela literatura que aqui se fazia. Não tenho notícia de tal axioma no que diz
respeito à Literatura Portuguesa. Nessa altura da vida, isso já não mais me
interessa. O que está em jogo aqui é meu gosto pela leitura de um livro que,
tecnicamente, é tratado como romance. Particularmente, não sei que nome dar. De
fato, nem sei se é mesmo necessário “dar um nome” a esse tipo e texto, ou a
qualquer outro. E esta é outra questão que vou abandonar à margem do caminho. Misto
de registo autobiográfico, diatribes sobre o ato de escrever, anotações esparsas
e aparentemente (propositalmente) fragmentadas ao longo do texto, tiradas
jocosas, pensamentos aparentemente (de novo, propositalmente?) desconexos. É
esta a realidade material do texto de Nuno Bragança, intitulado A noite e o
riso. Seria um romance cubista? Taxá-lo de surrealista iria custar páginas
e páginas de argumentação. Mais coisas deixadas ao largo. Seria então um
romance experimental, da ordem do nouveau roman francês...? Mais um
tanto de argumentação (inútil) aqui. Sendo uma ou (e?) outra coisa, ou não, o
fato é que o livro é um soco no estômago, como queria um dos pressupostos do “Futurismo”,
de Filippo
Marinetti. Sobre o livro, encontrei o seguinte comentário (https://www.infopedia.pt/$a-noite-e-o-riso):
“Romance
de Nuno Bragança inteiramente novo no momento em que foi publicado, em 1969,
divide-se em três grandes momentos narrativos: um em primeira pessoa, que
releva do género autobiográfico, mas cuja confessionalidade foi subvertida por
um narrador, que se serve do processo irónico para encenar ‘a perversa
inocência com a qual, já então, no passado se (des)conhecia o que depois será
sabido, processo irónico que não é defesa pela distância, ou discurso didático,
mas sim forma de desregramento interno da Ordem, pela qual as suas contradições
são ato, ou seja, pedagogia implícita da aprendizagem’ (cf. GUSMÃO, Manuel –
prefácio à 4.ª ed. de A Noite e o Riso, Lisboa, Dom
Quixote, 1995, p. 16); um segundo espaço, centrado nas personagens Zana e
Luísa, ‘formado por um conjunto de textos mais ou menos fragmentários,
internamente mais vezes heteróclitos, desenhando um percurso narrativo nem
linear nem circular.’ (id. ibi., p. 20); e,
por fim, uma última parte, ainda mais fragmentária, que colige pequenas
narrativas, descrições, experiências, em que se condensa uma forma de
sabedoria. De permeio, são desenvolvidas partes intercalares de ‘notas’, onde o
narrador reflete sobre o ato da escrita. ‘Romance (moderno) de crescimento e
aprendizagem / de duplo crescimento e dupla aprendizagem [...] – do narrador
enquanto sujeito agente da narração e da personagem enquanto sujeito da ação
narrada’ (id. ibi, p. 33), a grande
força de A Noite e o Riso reside na
utilização da ‘lucidez do riso’ enquanto última arma possível ‘face ao absurdo’
(A Noite e o Riso, p. 300), no recurso
à ironia como ‘princípio construtor’ que opera ‘através dos fragmentos; não
pois como atitude ou pose, mas como processo pelo qual, perdida a inocência do
corpo e da cultura, se reconhece no trabalho de escrita o instrumento e o corpo
de realização da experiência de vida’ (id, ibi, p. 34).” Não
deixa de ser instigante, pois não?! Como eu adoro um fuxico, reproduzo aqui
parte de uma outra página que encontrei por aí, mundo virtual afora (https://observador.pt/2020/01/05/nuno-braganca-nao-conheco-nenhum-escritor-com-esse-nome/): “Em Portugal não há tradição de se gostar de escritores ‘grãdes’ que
pulam tanto que saem pelo ‘tôpu’ e talvez por isso a reedição passou
despercebida, ou passaria não fora Vasco Pulido Valente, escrever no seu Diário
(jornal Público) que achava Bragança um escritor menor. Manuel Luís
Bragança, filho mais velho do escritor, não ficou satisfeito e afirma que ‘o
problema de VPV é que Nuno Bragança lhe terá roubado Maria Cabral’, a atriz que
foi casada com Pulido Valente. A verdade, verdadinha, é que 2019 foi o ano
Sophia e pouco mais e talvez Maria Belo, a psicanalista que também foi namorada
de Nuno Bragança, tenha razão quando afirma que ‘ele nunca teve reconhecimento
fora do seu círculo de amigos e pessoas atentas à literatura portuguesa, que
eram e são raras porque preferimos todos ler escritores de outras línguas. Em
1969 eu já estava com o Nuno quando saiu A Noite e o Riso e
não me lembro de ter acontecido nada de especial. Essa falta de reconhecimento
magoou-o muito, porque não era só pelo livro, mas sobretudo por ele, era o não
reconhecerem aquilo que ele mais queria ser, um escritor’. Em setembro, Manuel
Luís Bragança, que não vive em Lisboa, foi visitar a feira do livro promovida
pela Presidência da República, nos jardins do Palácio de Belém, e onde brilham
os escritores comprados a preços sublimes na feira de Frankfurt e que é preciso
vender. Está visto que nessas faustosas mesas literárias não estava A
Noite e o Riso, mesmo em ano de aniversário redondo. Manuel achou que
talvez estivesse noutro sitio e perguntou ao empregado se não tinha o livro de
Nuno Bragança. Mas o empregado confuso respondeu apenas: ‘Nuno Bragança? Não
conheço. Nem sabia que tínhamos um escritor com esse nome’. Mas havia, houve e
há um escritor chamado Nuno Bragança e uma pequena pérola, sem frases
perfeitas, adjetivos encrostados à pinça, e imagens desenhadas a cinzel. Ele
mesmo explica quem foi para poder ser quem queria ser: ‘Criado embora entre
hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços. Dia após
dia os mais laboriosos, cansativos forcejos projectavam meus membros anteriores
em-frentemente. E isto assim até que perdi as mãos de vista. Não que o meu
sorriso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa
palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades.’ [
A Noite e o Riso] Depois do 25 de Abril, Nuno
Bragança junta-se ao teatro A Comuna, onde conhece a sua futura mulher, a atriz
Madalena Pestana, com quem terá dois filhos. Nesses anos de ressaca
revolucionária, escreve para o Jornal de Letras, apoia a candidatura e o
governo de Maria de Lourdes Pintassilgo. A novela Do Fim do Mundo será
publicada postumamente, em 1990, embora ainda hoje não se saiba quando foi
escrita. Ao contrário de camaradas revolucionários dos quais ele fez
personagens, como Manuel Alegre, Nuno Bragança não fez carreira política, não
ganhou prémios literários, embora um só livro lhe garanta um lugar de culto na
nossa literatura. Morreu em 1985 devido a uma mistura de comprimidos e álcool.
Os filhos negam ter sido suicídio. Maria Belo diz apenas: deixou-se morrer.”
Uma vez mais, fica um convite para ler.


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