Capítulo de livro 1
Meu nome é Ezequiel. Para ser sincero, não tenho sobrenome.
Meu pai desapareceu meses antes de eu nascer. Minha mãe não quis me dar o nome
dele. Então, chamo-me Ezequiel. E só. Estou num lugar que não conheço. É todo
cimentado. Tem uma janela grande e gradeada mais para o alto da parede que deve
medir uns dois metros e meio. Não tenho condições de medir com exatidão. São 8
passos no lado mais comprido e 5 passos, no mais curto. Neste, diametralmente oposta
à janela, há uma porta de ferro com duas janelinhas. Ainda não consegui
descobrir para que servem ou, se descobri, neste exato momento não me lembro. Há
tanta coisa de que não me lembro. Para quem entra neste espaço, à direita
há uma espécie de balcão, a um metro e meio do chão, também de cimento, à
direita. Está repleto de livros e papéis. Não posso garantir sua origem, nem propriedade.
Uma cadeira e uma luminária completam a “decoração”. Do lado esquerdo, há uma
cama, também cimentada à parede, a uns oitenta centímetros do chão. Não sei
dizer ao certo se o colchão que está sobre ela é macio. Ao pé da cama, há uma
meia parede de uns dois metros de altura. Entre o pé da cama, onde está este
meia parede, e a porta há um vaso sanitário e um chuveiro. Parece não haver
água quente. Há apenas uma torneira e sobre a meia parede, um cabo de aço,
muito fino esticado, que travessa todo o espaço. Nele, algumas peças de roupa
penduradas. Ao que parece, são minhas. Não posso garantir. Tudo é ainda muito
confuso. Preciso manter a calma para não me perder em suposições absurdas. De
vez em quando, escuto vozes abafadas de um e de outro lado do espaço que ocupo.
Não sinto calor nem frio. Ainda é dia, vejo pela janela. De repente, uma das
portinholas se abre e vejo um rosto que me observa. Isso dura alguns segundos. A
janelinha se fecha e logo a porta é aberta. Dois homens sem rosto fiam parados,
um a cada lado da porta. Silentes. Não estão armados. Logo entra uma freira,
com um sorriso amarelo no rosto. Ela me convida a acompanhá-la. Vira-se e sai
andando. Sigo a freira, ainda sem entender muito bem o que se passa. Não faço
ideia de que lugar é esse. Não sei dizer se o que se passa é real ou apenas um
sonho. O silêncio é quase absoluto, quebrados apenas, às vezes, por passos rápidos,
um outro abrir e fechar de portas e sussurros noturnos. Devagar, chegam da
minha memória alguns momentos em que escutei esses sussurros. No entanto, outra
vez, não posso afirmar que os ouvi dentro do espaço em que me encontrei assim
que abri os olhos. Esses pensamentos ocorrem enquanto sigo a freira por um
corredor enorme. Há muitas portas iguais. Todas com duas janelinhas. A cada
três portas, do teto, pende uma luminária. Agora elas estão apagadas. Na
direção dessas luminárias, em cada uma das paredes laterais, há uma janela
grande gradeada, como a que descrevi antes. Não há insetos. O cheiro não é desagradável,
mas não consigo identificar o que seja. As portas e janelas são de ferro e as
paredes cimentadas. Tudo milimetricamente igual. Contei 45 luminárias. Devem
haver, então, mais de quarenta portas. Ou seja, mais de quarenta cubículos como
o que descrevi e onde estava antes da chegada da freira. Tenho preguiça de
fazer as contas. Você que me leu até aqui que as faça se quiser. A freira não
diz nada. Segue o corredor silente, em passo cadenciado pelo balançar do
rosário que pende de sua cintura. Seu hábito é preto, com um véu cor de creme.
Mais nada. Quase não vi seu rosto. Também, isso pouco importa. Pressinto que
ela seja apenas uma mensageira. Segue ordens. Depois de percorrer todo o
corredor, ela abre uma porta imensa de madeira, fica de lado e com o mesmo
sorriso amarelo aponta o caminho que devo seguir. Entro num salão oval, não
muito grande. Há apenas uma mesa e uma cadeira. Uma em frente à outra. Será
que vou ser interrogado? Mas não me lembro de nada, mito menos se cometi algum
crime ou fiz algo de errado. O que será? A sala não é muito iluminada. Não
há janelas, apenas a porta por onde entrei que se fechou abruptamente em
seguida. O barulho de chaves a trancar esta porta foi alto. Depois disso,
silêncio absoluto. Não consegui sequer escutar os sussurros que suponho ter ouvido
no espaço em que estava, quando a freira apareceu. Nada. A pouca luz não me
deixa identificar muita coisa no salão oval, mas creio não haver nada as
paredes. Olho para o teto: apenas uma abóbada escura. Nada. Ontem... Será
que foi ontem mesmo? O sabor do vinho que tomava no jardim de minha casa era forte.
Eu me sentia tranquilo, como de costume, e escrevia alguma coisa. Tento me
lembrar mas não consigo. Do nada, uma voz de homem, grave a macia me diz “bom
dia”. Respondo, mas não vejo ninguém, tão pouco identifico de onde vem a voz. O
silêncio continua. De repente, a mesmo voz diz meu nome. Respondo “sim”. E a
voz fica muda de novo.

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