Capítulo de livro III
Ainda sobre a Nelida. Anos depois
ela se vingou. Numa publicação que editou, não incluiu um texto meu,
apresentado e aprovado. Num encontro casual, perguntei o porquê. Ela disse, com
a sobrancelha esquerda arqueada e afinando mais ainda o bico, com o rosto
recortado pelas cicatrizes do acidente, que meu texto ficaria desvalorizado no
conjunto do volume. Deu um rodopio e arqueou mais ainda as sobrancelhas. Rodou a
saia estampada de flores enormes, em cores quentes. Sumiu no meio das
celebridades acadêmicas que a cercavam. Depois disso, mais nada, absolutamente
nada. Daí comecei a pensar. A palma das mãos vai ficando engelhada. Nos pés,
mais exatamente nos calcanhares, uma bolinha incômoda, vulgarmente conhecida
como esporão – será este mesmo o nome? – estava lá. Lembrava que um dia, tempos
atrás, um remédio fez com que desaparecesse. Mas cadê memória? Cadê lembrança?
O nome escapava, acompanhada pelo tempo. Ainda assim, a esperança de poder
entender o que se passara era mais forte. Mais forte que a própria vontade de
seguir em frente. Seguia, mas por inércia, cedendo ao impulso da energia que faz
a existência atravessar os atalhos e pistas deixados por Cronos. De nada
adianta ter este tipo de certeza. O mais certo é que não havia escapatória. Os
livros lidos, as lições estudas, os exemplos observados, nada disso conta. Mais
vale saber que, um dia, mesmo inesperadamente, o sentido se apresenta. Pode ser
de frente, na lata. Pode ser de repente, inesperado como um susto. As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no
entendimento, são as que tiveram uma infância infeliz. As outras, andam
atônitas, quase zumbis, seguindo modas, acreditando em falácias, céleres, para
o abismo caminhando. Assim, não sei como é que leitores conseguem entender
aquilo que se escreve. Depois de algum tempo, mesmo quem escreveu não sabe o
sentido do que fez. Quando muito, pensa, em silêncio admirado “Fui eu mesmo?”.
Ou por outra, desdenha: “Jamais escreveria tal bobagem”. Da mesma forma, fica
difícil explicar porque a única coisa que torna possível a identidade é a
ausência de mudança, mas ninguém acredita de fato que haja similaridade, quase
semelhança entre o fato e o que se pensa do fato. Porque a contradição sei
impõe, sempre, sem escapatória: quando sozinho, o desejo é estar acompanhado, e
quando acompanhado, o contrário. Acreditar piamente, sem duvidar, de tal
arbitrariedade de sentido é negar a própria capacidade de raciocínio. Isso pode
ser a humanidade. É preciso muito tempo para formar-se gênio ou transformar-se
num. Há que prevalecer o ócio criativo ficar sentado sem fazer nada, realmente
sem fazer nada. Como Ludovico, que criava poesia. Porque, ao fim e ao cabo, todo
mundo tem medo da morte e se pergunta sobre seu lugar no universo. Por isso o
poeta tem função: se não sucumbir ao desespero, vai encontrar antídotos para o
vazio da existência, o veneno de pensar. A conversa na sala oval não demorou
muito. Voltei para o cubículo acompanhado pela mesma freira do sorriso amarelo
e pelo homem vestido de branco, de cara inexpressiva. Agora já sabia onde
estava. Faltava ainda refazer o caminho até ali. Tentar descobrir como se deu a
minha vinda. E tentar explicar, para mim, mesmo, o motivo daquilo tudo. Voltei
ao cubículo e escrevi alguma coisa. “Quando começo a escrever um
poema, geralmente já tenho um plano em relação ao tema e à forma. A partir
disso, em torno da ideia original, vão se tecendo imagens e associações de
palavras. Às vezes pode ocorrer o contrário: em torno de imagens e associações
de palavras, não raro aproveitadas de outros poemas, o restante vai tomando
forma. De um modo ou de outro, quase nunca as primeiras tentativas são
aproveitáveis; há um longo caminho entre o que me vem primeiro à mão e o
resultado final.” Que empáfia! Como é que pode alguém criar para si mesmo tal impressão.
Penso que seria uma forma de escapar da sensação de fracasso. O reconhecimento
de que o que se criou era ruim, ainda. Continuei. Porém, há um caso curioso. Há
um poema – não me lembro mais quem é seu autor – chamado O manto da mulher
invisível. Seus dois primeiros versos me vieram prontos, sem qualquer
necessidade de ajuste: Nas linhas de minhas mãos, / o mapa de tua nudez.
(quanta presunção!) Isso ocorre tão dificilmente comigo que cheguei a pensar
ter sido traído pela memória e que esses versos já existiam; eu os estaria
inadvertidamente furtando de alguém. Depois de consultar o Google diversas
vezes, quase me convenci de que esses versos são mesmo meus. Mas até hoje
desconfio deles. Será? Outra coisa curiosa sobre esse poema é que o título
também veio do nada, sem nenhuma associação necessária com o conteúdo, e foi
por causa dele que decidi dar títulos aos poemas do livro. A primeira ideia era
a de que eles fossem apenas numerados (cheguei até a publicar alguns na
internete assim), mas o título me pareceu tão extraordinariamente inusitado que
não quis desperdiçá-lo.” Li e reli o que acabara de escrever. Já era noite.
Guardei os papeis e fui dormir.


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