Capítulo de livro II
Não sei dizer quanto
tempo se passou desde que entrei na sala semiescura. Não estava nervoso, nem
irritado. Curioso, essa é a palavra. Curioso. Fiquei andando de um lado para o
ouro esperando que alguém entrasse. Nada. nenhum barulho. Nada. Cansei de ficar
andando e me sentei. De repente, do nada, talvez pelo ócio, lembre-me de
Nelida. Aquela balzaquiana de saias floridas, perfume doce maquiagem carregada,
um tanto oleosa. Sua figura era... era... Exuberante. Não sei dizer outra
coisa. Francófila. Uma dos poucos brasileiros que conseguiram defender uma tese
de Estado em Paris. O ciclo romanesco dos Rougon-Macquart. Mais de uma dezena
de romances. Pastas depositadas na Biblioteca Nacional de Paris, como parte do
acervo do escritor francês Émile Zola. Um feito acadêmico e tanto. Ao lado de
outras tantas balzaquianas que foram para a França e escreveram apenas
trabalhos de conclusão de troisième cycle
universitaire e voltaram para pindorama arrotando
doutorados (havia um acordo entre os dois governos para o reconhecimento do
trabalho de conclusão do troisième cycle universitaire como tese de
doutoramento. E escreveram sobre autores brasileiros. Assim fica fácil. Nelida
não. Ela escreveu em Francês, sobre escritor francês. Tese original. Mas o que
mais chamava a atenção eram as saias estampadas com flores enormes, coloridas,
cores quentes. E o perfume adocicado meu Des. Ela me emprestou um livro. Não
havia tradução para o Português. Livro raro. Fiz uma cópia e antes de o
devolver fui roubado. Deixei a pasta no carro da Socorro, enquanto tomávamos um
chope, sábado à noite. Pronto! Chegamos no carro, porta arrombada e nada de minha
pasta. O livro de Nelida dentro. Ela nunca me perdoou. Fiz uma encadernação com
capa dura da cópia, mas nada. Ela não gostou pedi desculpas. Ela deu. Mas não
aceitou Anos depois cortou um artigo meu numa publicação coletiva. Questionei.
Ela argumentou que meu texto ia ficar deslocado em meio a outros de pior
qualidade. Desculpa esfarrapada. Fez um biquinho, bem à francesa, deu atenção
às celebridades acadêmicas que a cercavam e tietavam. Foi-se. Nunca mais a vi.
Ela não perdoou. Soube que sofrera um acidente e quase perdera a vida. Depois
disso. Nada. Nenhuma notícia a mais. Ela não me perdoou. O tempo passa e nada
de acontecer alguma coisa. Não sei por que me lembrei dela. Casualidade. Talvez
por conta do incidente do assalto. Talvez por conta da cara da freira de
sorriso amarelo. Talvez por conta da careca do homem de branco que abiu a porta
do salão em que estou. Seria um enfermeiro? Como saber? Não tinha a mínima ideia
de como fui parar naquele lugar. Não havia barulho e nada. As pessoas que
apareciam eram, todas elas, calmas e educadas. Nada de gritos, gestos abruptos,
caretas e ordens. Nada. Seria um hospital? Como saber? Ali fiquei, quieto. E a
mesma voz chamou meu nome. Respondi.
“Sabe que dia é hoje?”.
Não sabia.
“Sexta-feira. Você
veio para cá anteontem. Desacordado. Dormiu por mais de 30 horas. Parecia mesmo
cansado.”.
Não me lembro de
nada disso, repliquei. Confesso que estou um pouco curioso. Como me sinto bem,
a curiosidade não me incomoda.
“Você foi encontrado
em sua casa. Desacordado. O computador estava ligado e, aparentemente, você
escreva alguma coisa”.
Não me lembro disso
também. O que eu escrevia?
“Uma tese”.
Então estou me
doutorando?
“Não”.
Escrevia a versão
final, depois de aprovada, para publicação.”
Qual o assunto da
tese, se posso perguntar?
“Você escreveu sobre
um escritor aparentemente desconhecido. Braulio Bras.”
Talvez seja por isso
que há tantos livros e papeis na bancada dentro do cubículo em que acordei hoje.
Deve ser o material que estava em minha casa.
“Exatamente! Não
sabe mesmo por que veio pra cá?”
Não.
“Recebemos um telefonema
seu. Dois dias antes de o encontrarmos em sua casa. Você pedia auxílio para
encontrar uma palavra.”
Que estranho.
“Parece que você não
conseguia encontrar a palavra adequada para concluir uma argumentação.”
Por um momento tive
um lapso de recordação e visualizei meu escritório. De imediato, lembrei-me de Braulio
Bras e seu diário. Era fato. Não conseguia concluir o último parágrafo do
livro.
“Você está numa UAC –
Unidade de Auxílio à Criação. É uma espécie de empresa que presta serviço a
escritores em situações limite.”
Aquilo não me dizia
nada. Não me lembrava de ter telefonado para eles. Não me lembrava de quase nada.
O breve diálogo com a voz impessoal e a recordação de Nelida foram uma experiência
boa. Um pouco mais de tranquilidade me invadiu enquanto eu era reconduzido pela
freira de sorriso amarelo para o cubículo. Tinhas essas informações nova e,
talvez, com o passar do tempo, eu pudesse entender o que se passava.


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