Pesos e medidas
I
Na volta das férias, na primeira aula de Língua Portuguesa (ainda se leciona isso na escola?), a professora pedia uma composição (hoje os modernos diriam “redaçãov): “Minhas férias”. Tiro e queda. (Eu sei, eu sei. Já não pedem mais isso. Dizem que é antiquado. Preferem pedir às crianças que escrevam sobre os impactos do divórcio de seus pais no mercado de ações. Ou ainda, pedem para escreverem sobre suas identidades wzq∞alfatranscisantipós+metroassexuadaconvictas. É mais contemporâneo. Eu sei. Mas faz um esforço e deixa eu terminar minha historinha). Entre as redações, a professora encontra uma sui generis. “Nessas férias, fui visitar a fazenda de um amigo do bairro. Saímos no sábado pela manhã. O sol estava azul, azul, azul. A estrada era muito bonita e a mata estava verde, verde, verde. Quando chegamos, a mãe do meu amiguinho serviu um refresco que estava doce, doce, doce...”. E lá ia o autor repetindo três vezes o mesmo adjetivo para cada coisa que descrevia. A professora, muito ciosa de sua “inteligência, correção e responsabilidade”, cortou todos os adjetivos repetidos. Quando o autor da redação perguntou por que ela tinha feito aquilo, a professora, do alto de sua sabedoria, disse que não era preciso repetir os adjetivos, pois usá-lo uma vez apenas era o suficiente para qualificar os substantivos correlatos. Será que essa “professora” não se deu conta de que quem escreveu o texto tinha a necessidade de repetir os adjetivos para reafirmar a sua percepção das coisas, para, quem sabe, enfatizar sua reação? Não entra na cabeça da “douta mestra” que a criança tinha um objetivo a alcançar e o fez quando escreveu a composição?
II
A mulher (?) se diz cristã, temente a Deus, dedicada à
família. Tem uns tantos filhos naturais e mais um monte de adotados. De repente
(a opinião pública só pode entender que foi “de repente”, dado que as “narrativas”
todas elas, são tão tendenciosas...), enreda um complô contra o próprio marido
e, com a ajuda de alguns de seus filhos naturais, arquiteta o assassinato
dele, com sucesso. O detalhe, a cereja do bolo, é que a dona é uma deputada
federal. Com o ar mais cândido de que foi capaz de se servir, aparece em
público chorando, lamentado a morte do marido e afirmando que se tratou de um
assalto. Narrativa vai, narrativa vem, o que se sabe é a dona está usando uma
tornozeleira eletrônica. Sim. Apenas isso. Ela tem imunidade parlamentar e não
pode ser presa, dizem uns gaiatos boquirrotos por aí. Continua indo a supermercado, pregando o amor a Deus e à
família na Igreja de que faz parte, morando na mesma casa e (não posso
afirmar, mas...) recebendo seu salário com todos os penduricalhos religiosamente
no mesmo dia, conforme ordem de crédito em sua conta bancária.
III
O rapaz seduz uma menina, menor de idade. Faz com que ela
tome remédio narcotizante. Estupra a criatura. É indiciado. Os advogados de
defesa argumentam que se trata de estupro culposo (=sem a intenção de estuprar)
e conseguem a liberdade do rapaz. Rapaz? Ruy Barbosa, ou mais especificamente,
seus restos mortais devem estar agitadíssimos no fundo do túmulo onde está
enterrado.
IV
Tráfico – de armas e de drogas e de sexo e... e... e... – e morte. Perseguição. Ameaça de destruição. Roubo. Extorsão para proteção do comércio. “Gatos” na energia elétrica, na rede de telefonia, televisão a cabo e internete; venda clandestina de gás. Construção ilegal. E um “ministro do supremo cartel federal” (a expressão não é minha!) proíbe a entrada da polícia a não ser que envie à autoridade máxima responsável, antecipadamente, por escrito, justificativa plausível e consistente para a intervenção policial. Não contente, proíbe voo de helicópteros de vigilância e perseguição a criminosos sobre o espaço aéreo da “comunidade”.
V
Um jornalista é encontrado todo quebrado e machucado e
contundido, quase morto, no meio do mato, depois de dar continuidade a seu
trabalho de divulgação de crimes e desvios de conduta de “gente graúda”, na
terra em que mora. Nenhuma instituição representativa da classe se manifestou,
que eu visse ou ouvisse. Nenhuma.
Eu me pergunto: dá pra levar a sério um país em que esse
tipo de coisa acontece?


Comentários
Postar um comentário