Turbilhão

Os meninos de rua, vendedores de balas nos semáforos, não andam usando máscara. Acreditam-se imunes (?). Enquanto isso, dizem, os hospitais particulares (essa expressão sempre me intrigou, mas não vou devanear sobre ela aqui e agora) andam com sua lotação perto do limite. Dizem. Não fui a nenhum deles para verificar a veracidade da informação. Duvido que os defensores doas arautos da atualidade catastrófica o façam. Por isso não confio nos números divulgados. Posso estar dando prova de ignorância, mas não acredito. Enquanto isso, penso na real e concreta reação de Antonio Candido ao ler o texto de Clarice Lispector pela primeira vez. O que terá confidenciado à primeira pessoa que perguntou a opinião do professor? Na duração desse devaneio, recordo a gentileza e a finesse de Guimarães Rosa, numa entrevista dada na Alemanha, dizem, em 1962. O homem é de uma polidez que chega a fazer chorar, de inveja. Entre as muitas perguntas feitas, o autor encontrou maneira de falar de seu Grande sertão: veredas. Uma simplicidade humilde e transcendente ao falar. Que coisa. Tão diferente das “celebridades cometárias (consultem o dicionário!) ” de hoje, oriundas quase todas, de “oficinas” que supostamente “ensinam” a escrever bem. Os critérios mercadológicos (adoro o som desta palavra!) que o digam. Certos “prêmio” também. Mas não posso deixar de reiterar: sou um chato. O rapaz desconhecido faz um pequeno vídeo masturbando-se exibidamente e na hora agá, deixa a tela preta. Vende seu momento de “prazer” por alguns dólares a serem depositados eletronicamente, dando uma dor de cabeça danada para cancelar. Dizem. Na onda abafada que se estende pela última noite de novembro vem à lembrança a passagem pelo aeroporto do Galeão. Era assim chamado, então. O ano era 1972. Elis Regina tinha feito um especial para a televisão depois de lançar mais um LP. Com o que sobrou do dinheiro que meu pai me deu para ir até Maceió (disputei os Jogos Estudantis Brasileiros lá) – quase tudo, pois o governo militar encabeçado por Emílio Garrastazu Médici financiou integralmente os jogos! – comprei o LP e o trouxe como a relíquia do Raposão (procure o livro do Eça numa estante de biblioteca para saber quem é este). Delicadamente, com orgulho e um frisson gostoso. Era o complemento dourado da primeira viagem de avião. Por fim, coloquei no correio uma carta – sim, eu ainda escrevo cartas e as coloco no correio, apesar de não confiar mais nesta “empresa” – para a Elaine, ex-aluna e amiga. Mulher extraordinária de quem tenho orgulho deter sido professor e ser amigo. Um ser humano de dar inveja e de calar a boca a muita patricinha com sotaque puxado que se diz “socialista” e passa férias nas principais cidades cosmopolitas do universo, com toda a pompa e circunstância do capitalismo. Chorava copiosamente quando foi informada pelo medico que não poderia mais continuar fazendo o que fazia – levantamento de dados para uma pesquisa num jornal tradicionalíssimo – Correio do povo. Chorava porque era dedicada e se decidiu pelos estudos literários depois de alguns encontros com o monitor de uma disciplina que eu lecionava e que a levava a desistir da Literatura. Enquanto isso, muita coisa acontece, e a gente não faz ideia... Muita gente nasce e morre. Muita chuva cai. Muito animal morre. Muitas pessoas passam fome e baixam hospital, doentes. Muita coisa acontece. E ouço de um amigo que o ritmo dos versos que escrevo faz lembrar Álvaro de Campos e a cosmovisão de poesia que produzo tem a marca registrada de Cesário Verde. Será? Quero mesmo acreditar e, grato, digo isso a quem emitiu esse parecer. “Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?” (Machado de Assis, Dom Casmurro)



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