Destino


Ainda era estudante de Letras, quando ouvi falar numa senhora que atendia pelo nome de Agustina Bessa-Luis. Escritora do Norte português, densa, difícil para muitos, opulenta e caudalosa – o número de livros escritos impressiona: 93 (salvo equívoco), entre romances, contos, peças de teatro, crônicas e biografias. Um colosso. Gosto muito do que ela escreve. Muito mesmo. E pensando nisso, certa feita, resolvi ler um de seus primeiros romances A sibila. Na altura, não tinha muitos “recur$o$”. Encontrei o livro num sebo de Belo Horizonte que, não posso afirmar com certeza, não deve existir mais. Infelizmente. Encontrei um exemplar de segunda edição. Fui lendo. Lá pelas tantas percebi que havia alguma coisa esquisita, não conseguia dar andamento na leitura compreensiva da obra. Verifiquei e descobri que faltavam quase 25 paginas do danado do livro (os livros dela são, geralmente, bem “encorpados”...). Custei a me dar conta. Não tive opção. Deixei o volume numa coisa que foi doada para o Remar – organização que cuida de dependentes químicos. Não sei o destino do livro. O que sei é que, anteontem li uma notícia que me deixou estarrecido e me peguei pensando neste episódio comezinho na vida de um estudante de Letras. Que impacto esse tipo de coisa pode causar. É incalculável. A notícia segue abaixo (a fonte: O Orfeu Esquecido: a biblioteca de Jorge de Lima virou lixo - Piparote), sem comentários, porque fiquei deveras estupefato. Não sei o que dizer, sinceramente...

“Soube ontem, com pesar e indignação, que a biblioteca de Jorge de Lima (1893-1953) foi vendida como papel de reciclagem e enviada para um lixão. Vejam: o poeta de Invenção de Orfeu, cujo nome deveria ser sinônimo de transcendência na literatura brasileira, teve seu legado intelectual tratado como descarte. Não apenas livros — mas um pedaço da história literária do país, um mapa de ideias e inspirações que poderiam iluminar gerações, reduzido a lixo.
A grandeza de Jorge de Lima, poeta, médico e alquimista das palavras, não cabe em explicações rápidas. Ele era alguém que transitava entre os extremos da condição humana, entre a aspereza do sertão e a busca pelo divino, entre a modernidade desbravadora e o lirismo atemporal. Sua obra não é apenas um monumento à literatura brasileira; é um mergulho nas profundezas do espírito humano, na busca pela beleza e pela ordem em meio ao caos. E agora, sua biblioteca — que, certamente, guardava volumes repletos de notas marginais, sublinhados, rastros de sua mente em movimento — é tratada como lixo. Livros que Jorge deve ter tocado, lido, ponderado. Obras que o moldaram e que, de algum modo, foram absorvidas e transformadas na matéria-prima de sua poesia. É um destino que não ofende apenas ao escritor, mas a todos que ainda acreditam no papel da memória, na centralidade da cultura e na capacidade dos livros de mudar o mundo.
Não se trata apenas de uma biblioteca destruída. Trata-se de um sintoma mais profundo de um país que não valoriza suas bases culturais, que não entende o significado do que tem. A biblioteca de um poeta não é jamais um amontoado de papéis velhos; é um testemunho de um espírito inquieto, de uma mente que buscava compreender e nomear o mundo. Jogar isso fora é como jogar fora um pedaço da alma nacional.

Por isso, não posso deixar de pensar no significado desse episódio. É como se, enquanto nação, estivéssemos dizendo que o Brasil de Jorge de Lima não nos interessa mais — e, ao dizermos isso, declaramos também que não nos interessamos mais por nós mesmos.
Este não é um problema de uma biblioteca perdida, mas de uma visão de mundo em colapso. Vivemos numa época que idolatra o efêmero e despreza o que é duradouro. Uma época que consome imagens rápidas e descarta palavras eternas. A biblioteca de Jorge de Lima foi tratada como lixo porque não aprendemos a olhar para trás.
O destino da biblioteca dele não é apenas uma tragédia isolada. É um lembrete doloroso de que, enquanto projeto de civilização, falhamos. Falhamos em preservar, em honrar, em cuidar do que realmente importa. E quando o Brasil descarta Jorge de Lima, descarta a mim, a você; descarta a si mesmo.”

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