Mais uma
No capítulo das releituras que causam enorme prazer, mais uma: O cemitério de Praga, Umberto Eco. O semioticista sabia escrever um romance. Romance mesmo, dos bons. Depois de lê-lo pela primeira vez, estive em Praga. Procurei encontrar o “clima” de algumas passagens do romance naquela cidade misteriosamente encantadora. Devo confessar que, desta vez, uma estranheza me ocorreu: não me dei conta de algumas “personagens”, como descrito na contracapa do volume que compulsei (2ª edição, Record, 2011). A satanista e as missas negras por exemplo. Pode ter sido falta de atenção minha, pode ter sido leitura malfeita, pode ter sido efeito de “problemas” de tradução. Vai saber. Isso não importa, na verdade. O romance é delirantemente delicioso. Para além disso, é de uma graça, às vezes, estonteante. Há passagens hilárias. O humor refinadíssimo do autor e sua verve sarcástica marcam presença inolvidável. Prova de sua erudição e amplo conhecimento de causa. Uma delícia de ler. Destaco duas passagens, das muitas que me deixaram estonteado de tanto prazer na leitura. Não sei se o efeito vai ser o esmo em que está lendo estas linhas, mas vale o esforço.
A
primeira: “Entre
os intelectuais parisienses, há quem admita, antes de exprimir a própria repugnância
“ante os judeus, que alguns dos seus melhores amigos o são. Hipocrisia. Não tenho amigos judeus (Deus me livre); na minha vida sempre evitei essa gente. Talvez
os tenha evitado por instinto, porque o judeu (veja só, como o alemão) sente-se
pelo bodum (disse-o inclusive Victor Hugo, fetor judaica), que os ajuda a se
reconhecerem, por esses e outros sinais, como aconte![]()
ce aos pederastas. Meu avô me recordava que o
cheiro del do uso desmedido de alho e cebola e talvez das carnes de carneiro e de
ganso, sobrecarregadas por açúcares viscosos que as tornam atrabiliosas. Mas devem
ser também a raça, o sangue infecto, os dorsos derreados. São todos comunistas,
vejam-se Marx e Lassalle, ao menos nisso meus jesuítas tinham razão.
Sempre evitei os judeus também
porque estou atento aos sobrenomes. Os judeus austríacos, quando enriqueciam, compravam
sobrenomes
graciosos, de flor, de pedra
preciosa ou de metal nobre, daí Silbermann ou Goldstein. Os mais pobres adquiriam
sobrenomes como Grünspan (azinhavre). Na França, como na ltália mascararam-se adotando
nomes de cidades ou de lugares, como Ravenna, Modena, Picard, Flamand, e por
vezes se inspiraram no calendário revolucionário
(Froment, Avoine, Laurier) – justamente, visto que seus pais foram os artífices
ocultos do regicídio. Convém, porém, prestar atenção também aos nomes próprios
que vezes mascaram nomes judeus: Maurice vem de Moisés, Isidore de Isaac, Edouard
de Aarão, Jacques de Jacó e Alphonse de Adão...
Sigmund é um nome judeu? Por instinto, eu
tinha decidido não dar confiança àquele medicozinho, mas um dia, ao pegar o saleiro,
Froïde o derrubou. Entre vizinhos de mesa devem-se respeitar certas normas de
cortesia e eu lhe estendi o meu, observando que, em cercos países, derramar o
sal era de mau agouro, e ele, rindo, respondeu que não era supersticioso. Desde
aquele dia, começamos a trocar umas palavras. Ele se desculpava pelo seu
francês, que con siderava muito arrastado, mas se fazia entender muito bem. São
nômades por vício, precisam se adaptar a todas as línguas. Gentilmente, eu disse:
‘O senhor só precisa habituar mais o ouvido.’ E ele me sorriu com gratidão.
Escorregadia.
Froïde era mentiroso até
enquanto judeu. Eu sempre ouvira dizer que os da sua raça devem consumir apenas
alimentos especiais, cozidos apropriadamente, e por isso se mantêm sempre nos
guetos, ao passo que Froïde comia em grandes bocados tudo o que lhe sugeriam no
Magny e não desdenhava um copo de cerveja às refeições. (p. 48)”
A segunda: “–
Senhores, a afirmação de que Cristo era judeu é uma lenda divulgada precisamente
pelos judeus, como eram São Paulo e os quatro evangelistas. Na realidade, Jesus
era de raça céltica, como nós, franceses, que só muito tarde fomos conquistados
pelos latinos. E, antes de serem emasculados
pelos latinos, os celtas eram um povo conquistador; já ouviram falar sobre os gálatas, que chegaram até
a Grécia? A Galileia se chama assim por causa dos gauleses, que a colonizaram. Por outro lado, o mito de uma virgem que
teria parido um filho é mito céltico e druídico. Jesus, basta olhar todos os retratos
que temos dele, era louro e de olhos azuis. E falava contra os usos, as superstições,
os vícios dos judeus e, ao contrário de
tudo o que os judeus esperavam do
Messias, dizia que seu reino não era deste
mundo. E, se os judeus eram monoteístas, Cristo lança a ideia da Trindade,
inspirando-se no politeísmo céltico. Foi por isso que mataram. Judeu era Caifás que o condenou, judeu era Judas que o traiu, judeu era Pedro que o renegou...”
(p. 379)
Há
receitas, aqui e ali, durante a narrativa. Tudo temperado com afinada ironia,
tal como a seguinte observação: “Os tolos precisam ter sob as cobertas uma
mulher, ou um rapazinho, para não se sentirem sós. Não sabem que a água na boca
é melhor do que uma ereção. (p. 26). Mais “saboroso”, quase impossível! Atenção: não me venham com o lero-lero de que
Umberto Eco era antissemita. Por favor! Tenham a decência de ler suas
palavras no diapasão da ironia ficcional de que se serve para escrever o
romance. Que romance!
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