Resposta a uma insistência


Gerson insistiu tanto, mas tanto, que acabei por comprar o livro. Não me lembro de tê-lo lido antes. Se o fez, não deixou marca na memória, a leitura. Contudo, gostei bastante, apesar de ser da lavra do mesmo autor. Em seus três movimentos, como uma sonata, um concerto ou uma sinfonia – se bem que gênio(s) da música compuseram peças que tais com mais de três movimentos – o romance encanta por conta da agudeza com que aborda os temas que lhe são caros, ou que foram pré-estabelecidos pelo autor ele mesmo. Vai saber. A fé, a moral, comportamento ético, senso de justiça e responsabilidade, percepção da realidade, mudança história, revolução, valorização da sociedade do trabalho, etc. Eis uma lista deles, os temas e/ou subtemas que permeiam a caudalosa narrativa de Ressurreição, da autoria de Liev Tolstói. Sim. Ele mesmo. autor russo de quem já ousei chamar de chato e quase fui execrado pelo mesmo Gerson. Fi-lo e repito, é chato sim. Mesmo no caso presente, devo confessar. Na leitura que dele faço, sinto falta do humor quase ligeiro de um Gogol ou do senso de tragicidade da existência que ilumina as linhas de Dostoievsky. Não posso compará-lo com Tchekov, por exemplo, por não o ter lido. O mesmo vale ara a miríade de outros escritores russos que jazem no meu desconhecimento de leitor contumaz. Atentem para o fato de que comecei o último período com a expressão “Na leitura que dele faço”. Esta expressão é importante, irrecorrível mesmo, para que não me venham acusar disso ou daquilo em relação ao autor russo. Ressalto isso porque, de fato, ao fim e ao cabo, ninguém ainda reuniu autoridade suficiente para firmar categórica e definitivamente nada sobre nenhum romance. a cada leitura a História da obra se modifica, isso para não dizer do contato de cada leitor com ela. ainda que permaneçam um oblivium inconsútil, a tal História do livro permanecerá sempre volátil, etérea, fugaz. A ninguém é dado o direito de dizer que não há nada mais a dizer sobre o que quer que seja. Estamos no insondável campo do que convencionou chamar LITERATURA. O embate moral a que se subjuga a personagem central do romance chega a comover de tão sincero. Sua busca de redenção – neste caso, sinônimo de ressurreição, na economia “ficcional” da narrativa – traça uma linha sinuosa de busca de caminhos para a correção que pode ser considerado um pecado. Pelo caminho, a História da Rússia se faz presente e o conhecimento, mais que apurado, dos meandros da justiça coetânea ao período narrado, é seu companheiro. A comparação entre a vida do príncipe e a realidade daqueles impedidos de vive-la, por condição social, beira o sublime. As aspas para o termo ficcional, logo acima, se justificam. Sabe-se (ou presume-se, melhor dizendo, ainda que haja documentos comprobatórios... vai saber!) que muito do que ali está, no campo da ficcional romanesca de Tolstói é, segundo alguns, autobiográfico. Não me detenho neste aspecto, confesso, por quase absoluta ignorância referente ao assunto, mas refirmo: gostei de ler o livro, mas o autor, em minha modesta e quase inútil opinião, continua chato, menos, mas ainda chato. De qualquer forma, vale, e muito, a leitura, por suposto!

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