Dois por um
I
No dicionário Houaiss encontramos, no
verbete “gozo”, lê-se o seguinte: ato de gozar; satisfação, prazer: estado que
resulta da satisfação de uma atividade física, moral ou intelectual; posse ou
uso de uma coisa. Como regionalismo da Língua Portuguesa, significa coisa
engraçada, divertida; graça, prazer sexual; orgasmo, deleite. Já no Dicionário
de Psicanálise (Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, Rio de Janeiro, Zahar,
1998, com tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães, p. 219), no início de
similar verbete, lê-se a seguinte observação: “Raramente utilizado por Sigmund Freud,
o termo gozo tornou-se um conceito na obra de Jacques Lacan. Inicialmente
ligado ao prazer sexual, o conceito de gozo implica a ideia de uma transgressão
da lei: desafio, submissão ou escárnio. O gozo, portanto, participa da
perversão, teorizada por Lacan como um dos componentes estruturais do
funcionamento psíquico, distinto das perversões sexuais. Posteriormente, o gozo
foi repensado por Lacan no âmbito de uma teoria da identidade sexual, expressa
em fórmulas da sexuação que levaram a distinguir o gozo fálico do gozo feminino
(ou gozo dito suplementar). Não vou fazer a exegese do conceito. Trago-o aqui
para pontuar, qual farol para rota de navios em alto mar, iluminar, as linhas
que pretendo (ainda) escrever. Pois bem. Creio que vale a pena pontuar o
caráter de “vontade” e de decisão subjetiva que pode ser percebido
subliminarmente das primeiras linhas sobre o referido vocábulo. Nesta direção,
penso ser interessante também ressaltar que o gozo faz parte de certas
insistências que praticamos, nas mais variadas situações existenciais e que
reforçam o traço de constituição do psiquismo humano. Pois bem. Quanto à Psicanálise,
fico por aqui.
II
Acabei de ler hoje um livro que me deixou estupefato,
satisfeito, admirado. Há livros que prendem o leitor desde a primeira linha e
faz com que ele não consiga parar de ler. Se for obrigado a fazê-lo, na primeira
oportunidade, retoma a atividade que tanto “gozo” lhe dá. Outros livros
conseguem ir aumentado o interesse de leiro na medida que este vence as páginas
do volume, qualquer que seja sua dimensão. Estes dois “tipos” eu já conhecia. A
surpresa reveladora veio com este que acabei de ler, por ser um livro que, no
final – neste caso, em particular, exatamente no seu último capítulo – consegue
fazer com que o leitor fique boquiaberto, como eu fiquei. O último capítulo
deste livro que acabei de ler hoje, para além de ser uma síntese densa e
redonda de toda a argumentação espraiada em suas mais de 300 páginas, lidas,
assevero, com “gozo” contínuo, é um quadro límpido, sincero e absolutamente
sarcástico da ideia que permeia a argumentação, em sentido lato: a
universidade. Retomando a cronologia de ideias que embasam mudanças e
modificações na formação de outro conceito, o de intelectualidade e seus
derivados, o autor retoma balizas filosóficas e sociológicas para, ao lado de
sua formação antropológica, propor uma leitura do “estado da arte” do que se
conhece como “intelectuais”. O autor apresenta suas balizas argumentativas e
vai, com força, fundo e corajosamente, deslindando equívocos, desmistificando
falácias e elucidando tendências. É bom que se diga que não tenho condições “intelectuais”
de debater com o autor, o que não me impede de auferir “gozo intelectual” com a
leitura do volume. Por outro lado, é bom que se diga, que, ato contínuo, ler e
gostar de um livro não faz do leitor um adepto das ideias do seu autor. Em
outras palavras, porque gostou, o leitor não pode ser acusado de se filiar ao
ideário – de qualquer natureza e com qualquer tendência – do mesmo autor. Digo
isso porque sei, com tranquilidade que vou ser objeto as mais diversas reações,
caso eu veha a ser lido por um grupo de pessoas que, sei de antemão, vão me
enquadrar neste esquema rasteiro, pequeno, exíguo e superficial. A questão se
coloca desta forma porque, infelizmente, nos dias que correm, em pindorama,
repete-se à exaustão uma atitude execrável: desmerecer o gosto alheio sob o argumento
de que não é permitido a ninguém gostar de alguma coisa pelo simples prazer de
conhecer opiniões diversificadas sobre determinado assunto. Em outras palavras,
não há crime em ler nada que não seja para o seu próprio “gozo”. Inclusive as
leituras que se colocam em oposição a certo “gozo” torto de difamar por
difamar, de derrubar por prazer, de desmerecer porque não se quer ter esforço
para debater as ideias, em lugar de se submeter a estereótipos de natureza
vária. Deixei, de propósito, a revelação do título do livro e do nome do autor
para o fim. Assim, publicado o meu texto, tenho tempo de me preparar para as
referidas reações que, apesar de sabidas, são objeto de minha cética dívida
quanto à sua ocorrência de fato. O livro se chama A corrupção da
inteligência: intelectuais e poder no Brasil. Seu autor é o jovem antropólogo
Flávio Gordon, Recomendo a leitura, nem que seja para execrar livro/autor
depois. Mas para isso é mais que necessário ler o livro antes de tudo!


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