Do Norte
Lembro-me, muito
bem, daquela tarde. Dona Aglaêda começou a aula comentado da alegria de ter
chegado em sua casa o volume da Plêiade, com as obras de Marcel Proust, au
grand complet. Estava esfuziante. Comentou da alegria de ler o autor em sua
língua original e da importância de ler, ler sempre, e mais. Ler. O curso
versava sobre a Literatura Brasileira a partir de Guimarães Rosa, a partir de
56. Era uma versão personalíssima de Dona Aglaêda para o período da História da
Literatura Brasileira, a partir de 1956. Pois bem. Dentre os livros, ela
indicou uma obra que eu não consegui ler à altura. Não encontrei o volume nas
livrarias de Brasília e não havia nenhum sebo virtual então. Anos depois
comprei o dito livro. Acabei de lê-lo hoje. Comecei ontem e não consegui parar
hoje. Fica uma constatação: existe uma versão amazonense do Grande sertão: veredas.
Não se trata de apropriação. Não se trata de “obra baseada em...”. Não se trata
de plágio ou cópia. O livro é originalíssimo e, ainda assim, penso eu, comparável
ao monumento relato de Guimarães Rosa. O autor abusa de sintagmas nominais.
Abusa com vontade. Com vontade e com estilo. O nome dele é Paulo Herban Maciel
Jacob. O título do livro e Chuva branca. Em duas partes – a primeira sem
título e a segunda, “Mãe-do-rio-” (literalmente) – Palo Jacob como é mais
conhecido, apresenta a saga de Luis Chato pela Amazônia. A apresentação, nas
orelhas do livro, fica por conta de Aguinaldo Silva. Ele destaca o quarto ugar
conseguido pelo autor, na edição de 1967, do Prêmio Walmap. Um tempo em que os
prêmios literários tinham “escritores” como jurados, escritores de verdade,
como neste caso: Guimarães Rosa, Antonio Olinto e Jorge Amado. Imagina! A história
não “conta” nada. Isso é o que “pega” no livro. O vocabulário que desnuda a
cultura amazonense, as observações que remetem ao universo de Kafka – como quer
o apresentador – e ao próprio Guimarães Rosa, como eu acredito, e o clima denso,
abafado, úmido e pouco nítido, compõem uma narrativa sólida, pesada em sua
matéria, leve em suas alegorias que fazem repensar sobre o real significado da
existência, Da minha leitura, deduzo que um pouco do clima “terminal” de Lições
de abismo, do Gustavo Corção, também encontra eco neste relato, a travessia
de Luis Chato, pelas veredas úmidas e pastosas de uma “chuva branca” que a tudo
enevoa, não deixa desvelar e mistura, num amálgama quase naturalista. De fato,
a chuva, para além de sua materialidade natural, presente nas entrelinhas do
texto de Paulo Jacob, é mais uma alegoria para aquilo que Kafka fez representar
na metamorfose Gregor Samsa e que Guimarães Rosa colocou no longo causo narrado
por Riobaldo. A travessia, no caso presente, é muito mais interna. Não que não
o seja nos outros referentes que aqui eu trouxe. No entanto, o tratamento a que
chamei de “naturalista” da matéria, faz do livro de Paulo Jacob exemplo único
no quadro da Literatura Brasileira das décadas de 50 e 60 do século 20.
Inexplicavelmente desconhecido, para não dizer marginalizado pela chamada “crítica
universitária”. Claro está que isso, apenas no período de existência desta
mesma crítica, o quê, proporcionalmente, durou pouquíssimo. O que é uma pena. Voltando
ao que interessa. A leitura de Chuva branca faz-se suave, densa e sinuosa.
Causa um prazer refinado na leitura da poesia que emana de sua miríade de
sintagmas nominais, do relato de “ação” quase inexistente, na inteligência
apurada da construção de impressões e situações narrativas que se presentam no
bojo do relato. Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e morreu em 7 de
abril de 2004. Escreveu livros: Muralha verde, 1964, Andirá,
1965; Chuva branca, 1967; Dos ditos passados no acercador do Cassianã,
1969; Estirão do mundo, 1979; A noite cobria o rio caminhando,
1983; O gaiola tirante rumo do rio da borracha, 1987. Uma das poucas
referências que encontrei sobre este escritor pode ser encontrada aqui: http://desembpaulojacob.blogspot.com/.
A ideia de aproximar Paulo Jacob a Guimarães Rosa não é originalmente minha.
Depois de constatar isso, por mim mesmo, no endereço acima, de um blogue, encontro
a mesma afirmação remetida a Leila Miccolis. Como não quis escrever um “artigo
científico – ainda estou a procurar o que isso significa exatamente no “mundo das
letras” – fico por aqui. Tenho a sensação de que vou procurar os outros títulos
do mesmo autor, para saborear sua língua sedutoramente poética por mais um
tempo.

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