Possibilidade
“Valério foi um homem de bem. Ele era casado com Iracema e teve
cinco filhos: Luíza, Regis, Maura, Anderson, Valdemar e Silésio. Era descendente
de alemães. O pai dele era de Bremen e a mãe de Dresden. Ele nasceu em outra
terra, do outro lado do mar: Santo Anselmo. Numa terra linda, vermelha, rica em
nutrientes, fértil. Fez de tudo um pouco, na infância, adolescência e
juventude, para ajudar a família. Mudou-se para uma cidade maior e tornou-se
padeiro. Foi assim que ele criou sua família. Uma família grande, de gente
alta, de pele branca, olhos claros traços finos. Toda a família era muito ciosa
de seus valores e se vangloriava de sua origem, de sua ascendência. Luíza teve
uma filha e depois ficou viúva. Regis, que teve dois filhos, divorciou-se algum
tempo depois de casada. Maura era diferente, triste, reclusa, tímida, muito
diferente de todos os irmãos. Teve um filho também que, depois de adulto,
tornou-se artista plástico de sucesso na Europa oriental. Anderson continua
casado e tem um casal de filhos. Valdemar tem dois filhos e vive com muitas
dificuldades, apesar de todo apoio da família. Por fim, Silésio, o mais jovem e
o mais bonito. Pai de duas meninas lindas, não suportou a vida de casado com
uma mulher quase inexpressiva – para os padrões de sua família – e divorciou-se.
Todos, filhos de Valério, um homem de bem. Quando um irmão de Valério morreu, o
que ficou de sua família foi prestar sua solidariedade. Maura não foi porque já
tinha morrido. Valdemar e Silésio foram bem mais tarde, quase na hora do
enterro. Já Regis e Anderson foram com a mãe e os dois filhos de Regis,
acompanhador por Luíza. Ficaram menos que meia hora. Comparecimento protocolar.
O escritor observou tudo, com cuidado e atenção. Tomou notas. Reunia material
para tentar explicar o que se passou com quem o contratou para escrever sua
biografia. O trabalho ia ser longo. Observar pessoas é como pisar em ovos
quentes. Todo cuidado é menos que pouco. Muita acuidade. Sensibilidade à flor
da pele. O trabalho ia ser longo e penoso. O escritor, ademais, sabia: Valério
foi um homem de bem.”
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Este é o início de um romance que acabei de ler para fazer a
revisão da tradução que dele foi feita. A pedido do autor, não posso revelar,
nem seu nome, nem o título de seu romance. Um texto interessantíssimo. Escrito
por um homem maduro, que jamais fez uma “oficina de escrita criativa”. Um homem
que lê muito. Um homem interessante, que exerceu sua profissão. Um homem comum.
O livro parte de uma situação corriqueira que vais, aos poucos, revelando
aspectos inusitados das relações humanas, sobretudo aquelas que são chanceladas
com o selo “familiar”. Histórias de todo mundo, de todo dia. Histórias que nem
todo mundo gosta de contar, mas de derrete de vontade de escutar e goza com
elas. É esperar pela publicação do livro e se deleitar. Se eu me lembrar,
aviso, quando do lançamento.


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