Acredite se quiser
O homem vende suas balas e doces e pipocas na porta da
escola três vezes por semana. Entra ano, sai ano, lá está ele. Muitos alunos
param e compram diariamente suas guloseimas. Entres eles, um garotinho sapeca
que, saltitante que sai do carro do pai, passa pelo carrinho do seu Zé e compra
alguma coisa. Com o passar dos anos, o garoto vai crescendo e ao passar pelo
seu Zé, o mesmo dos primários anos de infância, faz uma piadinha, uma gozação.
O seu Zé não gosta, mas releva: coisa de criança. Mais anos passam, a
adolescência e a velhice caminham juntas na porta daquela escola. Muitas das
crianças agora são jovens a estudar na mesma escola e seu Zé lá com suas
guloseimas. Todos os dias a mesma coisa, anos a fio. E o tal garotinho que
cresceu e hoje está no terceiro ano do ensino médio continua lá. Todos os dias
na mesma hora ele passa e numa dessas, para além das piadinhas, das gozações,
para inovar, juntos aos coleguinhas, num dia como outro qualquer, tá um tapinha
(inocente em sua opinião) na cabeça do seu Zé que se enfurece e começa a
discutir e acaba por deferir dois tiros no rapaz. Seu Zé é preso. Vai a julgamento.
Os pais, ricos, clamam por justiça, vão aos jornais, aparecem na televisão,
tornam-se porta vozes do descalabro do crime hediondo cometido pelo vendedor de
balas. Seu Zé vai a julgamento. No dia das alegações finais, o promotor conclui
sua fala com olhar faiscante de desprezo pelo assassino frio e calculista e
pede a condenação. O advogado de defesa se levanta, se dirige ao júri e, antes
mesmo de começar sua locução, dirige-se ao juiz e o elogia, destaca suas
qualidades morais, sociais, cívicas e jurídicas. Eleva o tom de voz e alteia os
dotes do meritíssimo, passando a fazer seus comentários. Lá pelas tantas, argumenta
que não poderia continuar sem antes voltar a elogiar a superioridade do meritíssimo,
voltando à mesma litania. Faz isso umas tantas, durante o curso de suas alegações.
Quando, repetindo a mesma fórmula, retoma os elogios, o juiz, enraivecido, bate
na mesa e desanca o advogado numa série de impropérios – todos adequados ao
momento e à seriedade do contexto, mas impropérios – e diz ao advogado de
defesa para deixar de lado os elogios e terminar logo com o seu trabalho. Faz
isso de maneira quase agressiva, alterado mesmo, como se já não mais aguentasse
tanta bajulação. O advogado de defesa, com um sorriso matreiro no rosto,
volta-se para o júri e dispara: viram só, por cinco ou seis vezes elogiei o
juiz repeti suas qualidades, seus méritos e ele se alterou, ficou nervoso e
reagiu como visto. Agora imaginem o seu Zé que aguentou as chateações das
piadinhas e insultos durante quase 20 anos e o tapinha na última semana... O júri
inocentou seu Zé. Tirem suas próprias conclusões.
PS: o relato acima se refere a caso verídico, ocorrido nas
alterosas, salvaguardados os exageros já celebrados pelo adagiário: quem conta
um conto, aumenta um ponto. Mas o fato foi verídico!


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